ARTIGO  
Data de submissão: 21/07/2026 Data de aprovação: 06/08/2026 Data de publicação: 06/08/2026  
LITERACIA EM SAÚDE BASEADA NO VÍNCULO NA ERA DA  
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL  
uma proposição teórico-conceitual do Brasil para o mundo1  
Maria Cristiane Barbosa Galvão2  
Universidade de São Paulo  
______________________________  
Resumo  
A literacia em saúde tem sido tradicionalmente compreendida como a capacidade individual de acessar,  
compreender, avaliar e utilizar informações para tomar decisões em saúde. Essa abordagem, embora relevante,  
mostra-se insuficiente para explicar dimensões subjetivas, sociais e relacionais envolvidas na produção de sentido  
e na tomada de decisão em saúde. Com base em um estudo teórico-conceitual, de abordagem qualitativa,  
fundamentado na sistematização de experiências desenvolvidas no Centro Brasileiro de Referência em Informação  
em Saúde (CBRIS) entre 2016 e 2026, propõe-se a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo (LSBV), que se refere  
a um processo relacional caracterizado pela construção compartilhada de sentido, confiança e cuidado em  
interações simbólicas nas quais a linguagem atua não apenas como meio de transmissão de informações, mas como  
elemento constitutivo da escuta, do acolhimento e da transformação da experiência em saúde. Diferentemente das  
abordagens funcionalistas, centradas na capacidade individual de buscar, compreender, avaliar e aplicar  
informações, a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo reconhece que as decisões em saúde são construídas nas  
relações entre pessoas, incluindo pacientes, cuidadores e profissionais. Esse processo requer escuta, sensibilidade  
ao contexto, reconhecimento da singularidade e mediação atenta às dimensões cognitivas, sociais e afetivas da  
experiência humana. Nesse modelo, a literacia em saúde não constitui uma competência isolada do indivíduo, mas  
uma experiência relacional sustentada pela confiança mútua, pela reciprocidade e pela responsabilidade ética.  
Reconhece-se, assim, que, na era da inteligência artificial, preservar o vínculo humano constitui condição central  
para uma literacia em saúde ética, situada e socialmente responsável.  
1
Palavras-chave: literacia em saúde; literacia em saúde baseada no vínculo; LSBV; informação em saúde;  
inteligência artificial.  
BOND-BASED HEALTH LITERACY IN THE AGE OF ARTIFICIAL  
INTELLIGENCE  
a theoretical-conceptual proposition from Brazil to the world  
Abstract  
Health literacy has traditionally been understood as the individual capacity to access, understand, appraise, and  
use information to make health decisions. Although relevant, this approach proves insufficient to explain the  
subjective, social, and relational dimensions involved in meaning-making and health decision-making. Based on  
a theoretical-conceptual study with a qualitative approach, grounded in the systematization of experiences  
developed at the Brazilian Reference Center for Health Information (CBRIS) between 2016 and 2026, Bond-Based  
Health Literacy (BBHL) is proposed. It refers to a relational process characterized by the shared construction of  
meaning, trust, and care in symbolic interactions in which language operates not only as a means of transmitting  
information, but also as a constitutive element of listening, welcoming, and transforming the health experience.  
Unlike functionalist approaches centered on the individual capacity to seek, understand, appraise, and apply  
information, Bond-Based Health Literacy recognizes that health decisions are constructed in relationships between  
people, including patients, caregivers, and professionals. This process requires listening, sensitivity to context,  
recognition of singularity, and attentive mediation of the cognitive, social, and affective dimensions of human  
1
Texto derivado de apresentação oral no World Health Summit em Nova Deli, Índia, em abril de 2025 e ideias  
publicadas no Jornal da USP, disponível em: https://jornal.usp.br/?p=892743.  
2
Professora da Universidade de São Paulo (USP) e Cientista da Informação. Coordena o Grupo CONFLUENCIA,  
vinculado ao Instituto de Estudos Avançados da USP, com foco em tecnologia e informação em saúde para  
populações vulneráveis. Lidera também o Global Digital Lab: our lab is here! e o CBRIS Centro Brasileiro de  
Referência em Informação em Saúde.  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
   
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experience. In this model, health literacy does not constitute an isolated individual competence, but rather a  
relational experience sustained by mutual trust, reciprocity, and ethical responsibility. It is therefore recognized  
that, in the age of artificial intelligence, preserving human bonds constitutes a central condition for ethical, situated,  
and socially responsible health literacy.  
Keywords: health literacy; Bond-Based Health Literacy; BBHL; health information; artificial intelligence.  
LITERACIDAD EN SALUD BASADA EN EL VÍNCULO EN LA ERA DE LA  
INTELIGENCIA ARTIFICIAL  
Una proposición teórico-conceptual de Brasil para el mundo  
Resumen  
La literacidad en salud ha sido tradicionalmente comprendida como la capacidad individual de acceder,  
comprender, evaluar y utilizar información para tomar decisiones en salud. Este enfoque, aunque relevante, resulta  
insuficiente para explicar las dimensiones subjetivas, sociales y relacionales implicadas en la producción de  
sentido y en la toma de decisiones en salud. Con base en un estudio teórico-conceptual, de enfoque cualitativo,  
fundamentado en la sistematización de experiencias desarrolladas en el Centro Brasileño de Referencia en  
Información en Salud (CBRIS) entre 2016 y 2026, se propone la Literacidad en Salud Basada en el Vínculo  
(LSBV), que se refiere a un proceso relacional caracterizado por la construcción compartida de sentido, confianza  
y cuidado en interacciones simbólicas en las que el lenguaje actúa no solo como medio de transmisión de  
información, sino también como elemento constitutivo de la escucha, la acogida y la transformación de la  
experiencia en salud. A diferencia de los enfoques funcionalistas, centrados en la capacidad individual de buscar,  
comprender, evaluar y aplicar información, la Literacidad en Salud Basada en el Vínculo reconoce que las  
decisiones en salud se construyen en las relaciones entre personas, incluidos pacientes, cuidadores y profesionales.  
Este proceso requiere escucha, sensibilidad al contexto, reconocimiento de la singularidad y una mediación atenta  
a las dimensiones cognitivas, sociales y afectivas de la experiencia humana. En este modelo, la literacidad en salud  
no constituye una competencia aislada del individuo, sino una experiencia relacional sustentada por la confianza  
mutua, la reciprocidad y la responsabilidad ética.  
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Palabras clave: literacidad en salud; literacidad en salud basada en el vínculo; LSBV; información en salud;  
inteligencia artificial.  
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1 INTRODUÇÃO  
A literacia em saúde vem adquirindo centralidade nas discussões sobre acesso,  
compreensão, avaliação e uso de informações relacionadas à saúde. Sua relevância tornou-se  
ainda mais evidente com a expansão das tecnologias digitais, das redes sociais, dos mecanismos  
de busca e, mais recentemente, dos sistemas de inteligência artificial generativa. Nesse  
ambiente, informações em saúde circulam em grande volume, em diferentes formatos e com  
níveis variados de qualidade, precisão e inteligibilidade.  
É nesse cenário informacional e tecnológico que se insere o Centro Brasileiro de  
Referência em Informação em Saúde (CBRIS), iniciativa idealizada e coordenada pela autora  
deste artigo desde 2016 como projeto de extensão universitária da Faculdade de Medicina de  
Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. O CBRIS foi criado com o objetivo de responder  
dúvidas da população por meio de informações em saúde fundamentadas em evidências  
científicas e comunicadas em linguagem acessível.  
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O projeto articula ensino, pesquisa e extensão ao formar estudantes e docentes  
universitários para a busca, a avaliação crítica e a tradução do conhecimento científico, ao  
mesmo tempo em que oferece assistência informacional a pacientes, familiares, cuidadores,  
profissionais de saúde e à população em geral. Sua abordagem combina estratégias híbridas de  
disseminação da informação em saúde, conforme representado na Figura 1 e proposto por  
redes sociais como Facebook e Instagram. Mais recentemente, recursos de inteligência artificial  
vêm sendo testados, sob supervisão humana, com o objetivo de analisar sua viabilidade como  
apoio à elaboração de respostas dirigidas a pacientes, cuidadores e à população.  
Figura 1 - Estratégia híbrida de disseminação da informação empregada no CBRIS  
Fonte: A autora (2026).  
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Ao longo de dez anos de funcionamento, entre abril de 2016 e julho de 2026, a  
plataforma do CBRIS registrou mais de 1,8 milhão de acessos provenientes de diferentes  
regiões do Brasil e de diversos países, conforme apresentado no Gráfico 1. Essa abrangência  
temporal e geográfica caracteriza o CBRIS como um espaço contínuo de estudos sobre as  
necessidades informacionais, produção científica, mediação humana e comunicação em saúde.  
Gráfico 1 Distribuição dos acessos ao CBRIS por país, de abril de 2016 a julho de 2026  
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Fonte: Elaborado pela autora com dados do CBRIS (2016-2026).  
A experiência acumulada no CBRIS constitui o contexto empírico a partir do qual é  
possível examinar criticamente as práticas de produção, mediação e comunicação de  
informações em saúde realizadas ao longo do período, bem como os sentidos construídos nas  
interações entre pacientes, população,  
informacionais e tecnológicos.  
cuidadores, estudantes,  
docentes, recursos  
Partindo do cenário do CBRIS, este estudo adota uma abordagem qualitativa de  
sistematização de experiências, conforme proposto por Holliday (2006), em que o pesquisador  
parte de vivências concretas e interpretadas no contexto de sua prática profissional, buscando  
extrair sentidos, padrões e conceitos emergentes a partir da experiência vivida. A sistematização  
não visa apenas descrever eventos, mas construir inteligibilidade sobre fenômenos sociais e  
simbólicos a partir da reflexividade situada. Entende-se, nesta abordagem, que a experiência  
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vivida, quando criticamente interpretada, pode gerar conhecimento válido e transformador.  
Dessa forma, a sistematização de experiências não se limita ao relato de práticas. Trata-se de  
um processo reflexivo, no qual o vivido é reconstruído com intencionalidade analítica.  
Para o aprofundamento reflexivo e sistematização da experiência, foram mobilizados  
também autores amplamente conhecidos na discussão sobre literacia em saúde, tais como  
Simonds (1974), Institute of Medicine (2004) e Sørensen (2019).  
A partir da sistematização da experiência acumulada no CBRIS e de sua articulação com  
a literatura especializada, este estudo tem como objetivo propor uma reconfiguração conceitual  
da literacia em saúde.  
2 O CONCEITO DE LITERACIA EM SAÚDE  
Desde a origem do termo health literacy (Simonds, 1974), observa-se que grande parte  
dos artigos e livros sobre a temática o associa à capacidade que uma pessoa tem de buscar,  
acessar, compreender, avaliar, aplicar e compartilhar informações relacionadas à saúde, a fim  
de tomar decisões conscientes e seguras sobre si ou sobre outras pessoas (Institute of Medicine,  
2004; Sørensen, 2019), conforme representado na Figura 2.  
5
Figura 2 - Conceito tradicional de literacia em saúde: processo e produto  
Fonte: Elaborado pela autora (2026)  
Na representação apresentada, a literacia em saúde assume simultaneamente a condição  
de processo e de produto. Como processo, envolve obter, acessar, processar, compreender,  
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avaliar, aplicar e compartilhar informações relacionadas à saúde. Como produto, geralmente, é  
inferida a partir da capacidade demonstrada pelo indivíduo de empregar essas informações.  
Assim, em termos gerais, o uso considerado adequado da informação para decidir sobre a  
própria saúde ou a de outras pessoas tende a ser interpretado como indicativo de alta literacia  
em saúde, enquanto dificuldades de compreensão, avaliação ou utilização podem ser associadas  
à baixa literacia.  
Embora esse modelo represente operações informacionais relevantes, sua capacidade  
explicativa é limitada diante da complexidade das experiências concretas de saúde. As decisões  
não resultam exclusivamente da disponibilidade da informação ou do desempenho cognitivo  
individual, pois são atravessadas por medo, dor, confiança, valores, experiências anteriores,  
vínculos familiares, condições sociais, desigualdades institucionais e qualidade da comunicação.  
Ao relacionar diretamente o uso da informação ao nível de literacia do indivíduo, a  
abordagem tradicional tende a concentrar no paciente ou no cuidador a responsabilidade pela  
compreensão e pela decisão. Permanecem secundarizadas as condições relacionais,  
comunicacionais e institucionais nas quais a informação é produzida, compartilhada e  
interpretada. Uma informação pode ser cientificamente fundamentada e formalmente acessível,  
mas pode não gerar uso efetivo por razões variadas, dentre as quais falta de comunicação  
contextualizada, de escuta e de reconhecimento da singularidade da pessoa.  
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Além disso, nem toda demanda em saúde se limita à busca de conteúdo objetivo para  
subsidiar uma escolha. Em situações de adoecimento, as pessoas também podem buscar alívio,  
acolhimento, reconhecimento e apoio para lidar com o sofrimento. A informação em saúde  
integra, portanto, o cuidado e não pode ser compreendida como instância dissociada das  
relações humanas em que é comunicada.  
Embora a objetividade seja indispensável à avaliação clínica, ela não contempla  
integralmente as necessidades implicadas no cuidado. A subjetividade, a empatia, a  
disponibilidade de tempo, a escuta e a presença também participam da compreensão e da  
tomada de decisão. No CBRIS, essa dimensão manifesta-se desde o início das interações,  
frequentemente marcado por uma saudação ou por uma pergunta sobre o estado da pessoa.  
Antes da oferta de informações, busca-se compreender a dúvida, o sofrimento e o contexto da  
demanda, partindo-se do pressuposto de que a receptividade à informação pode depender de a  
pessoa sentir-se reconhecida e acolhida.  
Além disso, é preciso considerar que a disponibilidade crescente de informações em  
saúde não garante sua compreensão, incorporação ou utilização. Em situações de doenças  
graves ou de cuidados de fim de vida, por exemplo, a pessoa pode não buscar exclusivamente  
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cura ou prolongamento da vida, mas também compreensão, alívio, autonomia e condições  
dignas para enfrentar a finitude. Da mesma forma, indicadores de morbidade, mortalidade,  
sobrevida ou efetividade terapêutica, embora fundamentais, não revelam isoladamente como o  
adoecimento foi vivido, quais sentidos foram atribuídos à experiência ou em que condições  
ocorreu o acompanhamento.  
A singularidade da experiência humana tampouco pode ser reduzida a padrões  
computacionais. Sistemas de inteligência artificial podem processar dados, identificar  
regularidades e produzir respostas informacionais, mas não vivenciam o sofrimento, não  
estabelecem reciprocidade afetiva e não compartilham a experiência existencial do outro. Em  
contextos mediados por essas tecnologias, a literacia em saúde precisa preservar a centralidade  
da relação humana e reconhecer a subjetividade, a afetividade e a singularidade como  
dimensões constitutivas da produção de sentido em saúde.  
A crítica ao modelo tradicional não nega a importância das competências individuais de  
acesso, compreensão, avaliação e uso da informação. Sustenta, entretanto, que essas  
competências são insuficientes quando consideradas isoladamente. A tomada de decisão ocorre  
em relações concretas e depende das condições comunicacionais, sociais, éticas e afetivas que  
estruturam as interações.  
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3 A RELAÇÃO ENTRE LITERACIA EM SAÚDE E VÍNCULO HUMANO  
A centralidade atribuída às competências individuais pode reproduzir uma perspectiva  
capitalista-colonizadora, na medida em que submete experiências humanas, culturais e  
relacionais diversas a critérios previamente definidos por modelos técnicos de avaliação de  
literacia desenvolvidos no Norte Global. Nesse enquadramento, a pessoa tende a ser  
considerada a partir de sua capacidade de acessar, compreender e utilizar informações,  
geralmente em linguagem verbal escrita, enquanto dimensões como sofrimento, confiança,  
vínculo, contexto, subjetividade, necessidade de atenção e mesmo aspectos culturais como a  
oralidade e convivência em família permanecem secundarizados.  
Essa assimetria não constitui apenas um problema cultural ou metodológico, mas  
também expressa uma economia política da produção e da circulação da informação em saúde.  
A definição de literacia com base na capacidade individual de acessar, compreender e utilizar  
informações científicas preserva a centralidade das instituições que produzem, certificam,  
selecionam e distribuem esse conhecimento. Universidades, centros de pesquisa, editoras  
científicas, grandes veículos de comunicação, plataformas digitais, mecanismos de busca e  
empresas de inteligência artificial ocupam posições distintas, porém privilegiadas, na produção,  
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certificação, seleção, ordenação, tradução e circulação do que passa a ser reconhecido como  
informação legítima, relevante e utilizável em saúde.  
Nesse sistema, a informação científica não circula apenas como bem público, mas  
também como objeto simbólico, institucional, tecnológico e econômico. Sua produção gera  
prestígio acadêmico, financiamento, dados, influência pública, assinaturas, audiência, serviços  
digitais e produtos tecnológicos. Quanto mais as dificuldades de compreensão são localizadas  
no indivíduo, maior pode se tornar sua dependência de instituições, especialistas, plataformas  
e tecnologias responsáveis por produzir, traduzir, organizar ou tornar acessível essa informação.  
Essa dinâmica não pressupõe que tais instituições atuem deliberadamente para produzir  
baixa literacia. Ela revela, entretanto, que modelos centrados no déficit individual são  
compatíveis com estruturas econômicas que transformam conhecimento, atenção, dados e  
mediação informacional em fontes de valor. Ao localizar no indivíduo o problema da  
compreensão, esses modelos tendem a preservar sem questionamento as linguagens, os  
formatos, os canais e os critérios de legitimidade estabelecidos pelos principais produtores da  
informação científica.  
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Quando esses mesmos critérios são agregados e empregados na comparação entre  
populações e países, a classificação segundo níveis de literacia também pode reproduzir  
hierarquias geopolíticas do conhecimento. Países com sistemas educacionais fortemente  
orientados pela cultura escrita, pela ciência institucionalizada e pelas tecnologias digitais  
tendem a ocupar posições mais favoráveis nas avaliações tradicionais. Em contraste, sociedades  
nas quais a oralidade, a memória coletiva, a convivência familiar, as narrativas comunitárias e  
outras formas relacionais de produção de sentido possuem maior centralidade podem ser  
representadas como contextos de baixa literacia. Essa classificação não demonstra  
necessariamente ausência de compreensão ou de conhecimento em saúde, mas pode evidenciar  
a inadequação dos parâmetros empregados para reconhecer formas culturalmente distintas de  
interpretar, compartilhar e utilizar informações.  
Reconhecer a oralidade, a memória coletiva e as práticas comunitárias como formas de  
produção e circulação de sentidos não implica atribuir a todas as informações o mesmo estatuto  
de evidência científica. A crítica incide sobre a transformação de diferenças comunicacionais e  
culturais em déficits individuais ou populacionais, e não sobre a necessidade de avaliar a  
qualidade, a segurança e a fundamentação das informações em saúde.  
Desse modo, o conceito tradicional de literacia em saúde pode converter diferenças  
históricas, culturais, comunicacionais e econômicas em déficits atribuídos aos indivíduos ou às  
populações. Ao mesmo tempo, países e instituições que controlam os principais meios de  
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produção e circulação da ciência permanecem posicionados como referências universais de  
conhecimento, racionalidade e competência. A distribuição internacional da alta e da baixa  
literacia pode refletir, portanto, não apenas capacidades das populações avaliadas, mas também  
as relações de poder inscritas nos instrumentos, nas linguagens e nos modelos econômicos que  
organizam a informação em saúde.  
Diante desses limites, propõe-se uma reconfiguração conceitual da literacia em saúde,  
capaz de reconhecer que a compreensão e o uso da informação não dependem apenas de  
habilidades cognitivas ou funcionais, mas também das relações humanas nas quais a informação  
é produzida, comunicada, recebida e significada.  
Propõe-se, assim, o conceito de Literacia em Saúde Baseada no Vínculo (LSBV), que  
se refere a um processo relacional caracterizado pela construção compartilhada de sentido,  
confiança e cuidado em interações simbólicas nas quais a linguagem atua não apenas como  
meio de transmissão de informações, mas como elemento constitutivo da escuta, do  
acolhimento e da transformação da experiência em saúde. Diferentemente das abordagens  
funcionalistas, centradas na capacidade individual de buscar, compreender, avaliar e aplicar  
informações, a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo reconhece que as decisões em saúde  
são construídas nas relações entre pessoas, incluindo pacientes, cuidadores e profissionais. Esse  
processo requer escuta, sensibilidade ao contexto, reconhecimento da singularidade e mediação  
atenta às dimensões cognitivas, sociais, culturais e afetivas da experiência humana. Nesse  
modelo, a literacia em saúde não constitui uma competência isolada do indivíduo, mas uma  
experiência relacional sustentada pela confiança mútua, pela reciprocidade e pela  
responsabilidade ética.  
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Na perspectiva da Literacia em Saúde Baseada no Vínculo, a classificação isolada de  
pacientes ou cuidadores segundo níveis de “alta” ou “baixa” literacia em saúde mostra-se  
insuficiente para explicar a complexidade da comunicação e da tomada de decisão. O foco  
analítico desloca-se das supostas limitações individuais para as condições relacionais em que a  
informação é comunicada, interpretada e ressignificada. Assim, cabe aos profissionais,  
serviços, instituições e sistemas de saúde e de informação criar condições para adaptar a  
linguagem, contextualizar o conhecimento científico, reconhecer necessidades singulares e  
construir, com pacientes e cuidadores, possibilidades efetivas de compreensão e participação  
nas decisões em saúde.  
O conceito de Literacia em Saúde Baseada no Vínculo é sistematizado na Figura 3.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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Figura 3 Representação conceitual e simbólica da Literacia em Saúde Baseada no Vínculo (LSBV)  
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Fonte: Elaborado pela autora (2026)  
Por ora, é também importante salientar que a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo  
não se confunde com a mediação da informação ou com a humanização da assistência em saúde.  
Por outro lado, as distinções entre estes conceitos apresentadas no Quadro 1 possuem finalidade  
analítica e didática, indicando ênfases predominantes, sem excluir aproximações, sobreposições  
e complementaridades entre os conceitos no cotidiano.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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Quadro 1 - Comparação entre a mediação da informação, a humanização da assistência e a Literacia em Saúde  
Baseada no Vínculo  
Dimensão  
Mediação da  
Informação  
Humanização da  
Literacia em saúde baseada  
no vínculo  
Assistência em Saúde  
Saúde Coletiva, Bioética,  
Políticas Públicas  
Ciência da Informação,  
Comunicação,  
Biblioteconomia  
Facilitar o acesso, a  
organização e o uso da  
informação  
Estudos da linguagem,  
subjetividade, comunicação  
em saúde e ética do cuidado  
Construir vínculo por meio  
da linguagem; ressignificar a  
informação no encontro  
humano  
Origem  
Epistemológica  
Garantir dignidade, escuta,  
acolhimento e respeito na  
relação entre profissionais e  
usuários  
Foco Principal  
A informação como  
conteúdo a ser acessado  
e compreendido  
Técnico-comunicacional  
(entre sujeito e  
A relação e o cuidado como  
práticas éticas e  
institucionais  
Político-institucional  
(protocolos, estruturas,  
condutas)  
A linguagem como elo  
simbólico de confiança,  
escuta, sentido e afeto  
Relacional-simbólico (na  
interação subjetiva entre  
humanos)  
Objeto Central  
Nível de  
Atuação  
conteúdo)  
Reconhecida  
Parte do cuidado ético e  
relacional  
Fundante e essencial.  
Papel da  
Subjetividade  
Papel do  
Mediador, facilitador da  
compreensão  
Cuidador ético, atento às  
necessidades do outro  
Presença, escuta ativa e  
afetiva que compartilha  
sentido com foco na saúde  
Profissional  
Ferramenta de apoio à  
mediação e acesso  
Pode estar presente, mas não Pode apoiar, mas nunca  
Papel da  
Tecnologia  
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substitui o vínculo humano  
substitui a escuta e o vínculo  
afetivo entre sujeitos  
Bibliotecário que ajuda  
paciente a encontrar  
conteúdo confiável  
Compreensão eficiente  
da informação  
Profissional que acolhe com  
respeito e empatia  
Interação que começa  
ouvindo, antes de oferecer  
qualquer informação  
Exemplo Prático  
Atendimento digno, ético e  
integral  
Cuidado significativo e  
transformador, mediado pela  
linguagem e ancorado no  
vínculo humano  
Objetivo Final  
Fonte: A autora (2026)  
4 A LITERACIA EM SAÚDE EM TEMPOS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL  
Assim como um piano depende da ação do pianista para produzir música, os sistemas  
de inteligência artificial dependem da intervenção humana para a definição de objetivos, a  
formulação de perguntas, a interpretação das respostas e o reconhecimento de seus limites. No  
campo da saúde, sua incorporação exige, portanto, conhecimentos sobre linguagem, lógica,  
ética, ciência e funcionamento algorítmico, além da capacidade de avaliar criticamente a  
qualidade das informações produzidas.  
Pacientes, cuidadores e profissionais de saúde precisam desenvolver competências  
digitais, informacionais e relacionadas à inteligência artificial para interpretar, questionar e  
contextualizar as respostas geradas por esses sistemas. Na ausência dessas competências,  
aumenta o risco de aceitação de informações incompletas, imprecisas ou insuficientemente  
fundamentadas, bem como de conteúdos que reproduzem vieses presentes nos dados utilizados  
no desenvolvimento dos modelos.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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Desde 2016, o CBRIS atua na produção, mediação e disseminação de informações em  
saúde destinadas à população. A partir de 2024, recursos de inteligência artificial passaram a  
ser incorporados experimentalmente às atividades do projeto, com o objetivo de analisar sua  
aplicabilidade na elaboração de respostas a dúvidas reais de pacientes, familiares, cuidadores e  
demais usuários.  
Resultados de estudo conduzido no CBRIS por Carrapato e Galvão (2024) indicam que  
sistemas de inteligência artificial podem apresentar desempenho satisfatório diante de  
perguntas simples, objetivas e procedimentais. Diante da pergunta “Como medir o açúcar no  
sangue?”, por exemplo, a inteligência artificial produziu uma resposta clara, correta e útil. Esse  
desempenho, entretanto, não se manteve de forma uniforme em questões que exigiam  
apreciação das evidências científicas, contextualização clínica ou consideração de riscos.  
Quando questionada sobre a eficácia do canabidiol para pessoas autistas, a  
inteligência artificial apresentou generalizações e formulações excessivamente favoráveis, sem  
explicitar suficientemente a fragilidade das evidências científicas disponíveis e os riscos  
associados ao seu uso. As respostas elaboradas pela equipe humana fundamentaram-se em  
revisões sistemáticas e recomendaram cautela clínica (Carrapato; Galvão, 2024).  
Situação semelhante foi observada diante da pergunta “Para que serve a risperidona?”.  
A resposta algorítmica omitiu efeitos adversos relevantes. As respostas humanas incluíram  
essas informações, contextualizaram os riscos e alertaram sobre a inadequação da  
automedicação (Carrapato; Galvão, 2024).  
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Essas diferenças indicam que o desempenho da inteligência artificial varia conforme a  
natureza da pergunta, a qualidade das evidências disponíveis e a necessidade de  
contextualização clínica, ética e relacional. Questões objetivas e procedimentais podem ser  
respondidas de maneira satisfatória, enquanto perguntas relacionadas a incertezas científicas,  
sofrimento, medo, exclusão ou outras dimensões subjetivas exigem formas de mediação que  
não se restringem ao processamento de informações.  
Os resultados obtidos até o momento sugerem que a inteligência artificial pode integrar  
iniciativas de literacia em saúde, desde que seu uso seja acompanhado por supervisão humana  
qualificada, curadoria científica e responsabilidade ética. Não se deve transferir exclusivamente  
aos usuários a responsabilidade de reconhecer omissões, vieses, incertezas e riscos presentes  
nas respostas algorítmicas, especialmente em contextos de baixa escolaridade, reduzida  
familiaridade digital ou vulnerabilidade social. A avaliação crítica dessas respostas requer  
educação, domínio da linguagem, apoio e acesso a fontes confiáveis.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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5 POTENCIAIS CONTRIBUIÇÕES DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA A  
LITERACIA EM SAÚDE BASEADA NO VÍNCULO  
No contexto da Literacia em Saúde Baseada no Vínculo, a inteligência artificial pode  
atuar como recurso complementar à escuta humana, sem substituí-la. Sistemas algorítmicos  
podem identificar padrões nas demandas apresentadas, organizar dúvidas recorrentes,  
classificar necessidades informacionais e apoiar a elaboração inicial de respostas. Essa  
utilização pode reduzir o tempo dedicado a tarefas operacionais e ampliar a disponibilidade dos  
profissionais para atividades que exigem atenção individualizada, escuta qualificada e  
construção de vínculo. Em iniciativas como o CBRIS, a inteligência artificial pode auxiliar no  
processamento inicial das perguntas, enquanto situações relacionadas a sofrimento,  
vulnerabilidade e incerteza permanecem dependentes de mediação humana.  
A inteligência artificial também pode contribuir para a mediação linguística entre  
indivíduos, profissionais e sistemas de saúde. Entre suas possíveis aplicações estão a tradução  
de terminologias especializadas, a simplificação de conteúdos técnicos, a adaptação da  
linguagem a diferentes níveis de compreensão e a apresentação de informações em formatos  
multimodais. Quando submetidos à curadoria científica e à avaliação de acessibilidade, esses  
recursos podem favorecer a inclusão de pessoas com diferentes necessidades comunicacionais  
e reduzir barreiras de acesso e compreensão da informação. A tecnologia pode facilitar o início  
da comunicação, mas a atribuição de sentido à informação ocorre no interior de relações sociais,  
culturais e humanas.  
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Outra contribuição potencial consiste na identificação de marcadores linguísticos  
associados a medo, hesitação, confusão, urgência ou sofrimento. Esses sistemas não  
reconhecem emoções como experiências subjetivas, mas podem inferir padrões textuais ou  
vocais que indiquem a necessidade de atenção adicional. Sob supervisão qualificada, tais  
sinalizações podem auxiliar profissionais a priorizar demandas, aprofundar a escuta e ajustar a  
comunicação às condições apresentadas pela pessoa. A interpretação desses sinais e a resposta  
ao sofrimento, entretanto, permanecem responsabilidades humanas.  
A inteligência artificial pode ainda funcionar como recurso de memória informacional  
do cuidado. Mediante consentimento, proteção de dados e regras explícitas de governança,  
sistemas computacionais podem organizar demandas anteriores, registrar mudanças nas  
necessidades informacionais e apoiar a reconstrução longitudinal das interações. Essa  
capacidade pode contribuir para reduzir a fragmentação da informação e oferecer aos  
profissionais uma visão mais integrada da trajetória do paciente. O registro algorítmico,  
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contudo, não equivale à compreensão da história individual, cuja interpretação depende do  
contexto, da escuta e dos sentidos atribuídos pela própria pessoa.  
Essas aplicações estão sujeitas a limites técnicos e éticos. Sistemas de inteligência  
artificial não vivenciam sofrimento, não possuem consciência ou agência moral, não podem  
assumir responsabilidade ética pelas consequências de suas respostas e não estabelecem  
reciprocidade afetiva. Embora possam produzir enunciados linguisticamente semelhantes a  
manifestações de empatia, essa simulação não corresponde ao acolhimento humano. Seu papel  
deve permanecer instrumental, contextualizado e submetido à supervisão ética, científica e  
profissional.  
A inteligência artificial também pode gerar informações incorretas, incompletas,  
desatualizadas, não verificadas ou insuficientemente fundamentadas. Embora erros e vieses  
também ocorram na produção humana de informações, os sistemas algorítmicos podem  
reproduzi-los em larga escala e apresentá-los com elevado grau de fluidez e aparente segurança.  
Além disso, esses sistemas não podem reconhecer autonomamente o dano causado nem  
promover reparação.  
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Na Literacia em Saúde Baseada no Vínculo, a contribuição da inteligência artificial  
depende, portanto, de sua inserção em processos orientados por curadoria científica,  
transparência, proteção de dados, supervisão humana e responsabilidade institucional. Sua  
finalidade deve ser apoiar a organização e a comunicação da informação, preservando para os  
seres humanos as funções de escutar, interpretar contextos, acolher vulnerabilidades, assumir  
responsabilidades e construir vínculos.  
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Quadro 2. - Contribuições da inteligência artificial na Literacia em Saúde Baseada  
no Vínculo (LSBV)  
Dimensão  
Onde a inteligência artificial  
contribui para a LSBV sob  
supervisão humana  
Onde a inteligência artificial não  
substitui o vínculo humano  
Produção da  
informação  
Apoio preliminar para a recuperação,  
organização, síntese e estruturação  
de informações em saúde.  
Definição do significado da  
informação para cada pessoa.  
Comunicação  
Apoio à tradução, simplificação da  
Escuta qualificada, acolhimento,  
linguagem e adaptação do conteúdo a diálogo e construção compartilhada  
diferentes públicos.  
de sentido.  
Análise  
informacional  
Identificação de padrões, tendências,  
necessidades recorrentes e grandes  
volumes de dados.  
Compreensão da singularidade da  
experiência humana e do contexto de  
vida.  
Tomada de  
decisão  
Oferta preliminar de evidências,  
alternativas, alertas e subsídios  
analíticos ao profissional.  
Julgamento clínico, responsabilidade  
ética e decisão compartilhada entre  
pessoas.  
Acompanhamento Organização do histórico  
Construção de confiança,  
longitudinal  
informacional, memória do cuidado e reciprocidade e continuidade do  
monitoramento de informações.  
Apoio no desenvolvimento de  
materiais educativos, respostas  
iniciais, tradução e acessibilidade.  
Identificação de indicadores  
linguísticos associados ao sofrimento  
ou à vulnerabilidade.  
vínculo humano.  
Educação em  
saúde  
Motivação, sensibilização,  
negociação de significados e  
fortalecimento da autonomia.  
Empatia, presença, reconhecimento  
do sofrimento e apoio emocional.  
Aspectos  
emocionais  
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Aspectos éticos  
Apoio técnico à análise de  
informações e documentação.  
Responsabilidade moral, prudência,  
deliberação ética e reparação diante  
de danos.  
Síntese conceitual  
Atua como tecnologia de apoio à  
O vínculo humano permanece a  
produção, organização e mediação da condição central para que a  
informação em saúde.  
informação adquira sentido e possa  
ser incorporada às decisões em  
saúde.  
Fonte: Elaborado pela autora (2026).  
6 CONCLUSÃO  
Este artigo propõe a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo como uma reconfiguração  
teórica, política e epistemológica da literacia em saúde. A proposta contesta modelos que  
concentram no indivíduo a responsabilidade de acessar, compreender e utilizar informações e  
sustenta que a produção de sentido em saúde ocorre em relações atravessadas por linguagem,  
confiança, subjetividade, afeto e responsabilidade. Nessa perspectiva, a literacia em saúde não  
pode ser reduzida à mensuração de competências individuais, pois depende das condições  
comunicacionais, institucionais e humanas nas quais a informação é produzida, compartilhada  
e interpretada.  
A Literacia em Saúde Baseada no Vínculo emerge de uma experiência situada no Brasil,  
desenvolvida ao longo de dez anos no CBRIS, mas responde a um problema de alcance  
internacional: a insuficiência de modelos informacionais e tecnocráticos para explicar a  
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complexidade das decisões em saúde. Na era da inteligência artificial, essa insuficiência torna-  
se ainda mais evidente. Sistemas algorítmicos podem organizar dados, produzir respostas e  
apoiar processos comunicacionais, mas não assumem responsabilidade ética, não compartilham  
a experiência do sofrimento e não constroem reciprocidade humana.  
A Literacia em Saúde Baseada no Vínculo também evidencia que os modelos  
tradicionais de literacia não são neutros. Ao adotarem como referência predominante a  
capacidade de acessar, compreender e utilizar informações científicas, frequentemente em  
linguagem escrita e produzidas segundo padrões institucionais do Norte Global, esses modelos  
podem classificar como baixa literacia formas de comunicação, compreensão e tomada de  
decisão próprias de sociedades marcadas pela oralidade, pela convivência comunitária e por  
outras matrizes culturais. Essa assimetria revela a vinculação entre os critérios de literacia, as  
estruturas de poder que legitimam determinadas formas de conhecimento e o modelo  
econômico que transforma a informação científica em objeto simbólico, institucional e  
tecnológico. A Literacia em Saúde Baseada no Vínculo propõe superar essa redução sem negar  
a ciência, reconhecendo que a transformação da evidência em compreensão e cuidado depende  
de condições comunicacionais e relacionais capazes de acolher a singularidade, a cultura, a  
linguagem e a experiência humana.  
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É importante ressaltar que, conforme exposto, a Literacia em Saúde Baseada no Vínculo  
torna-se possível em larga escala com a emergência da inteligência artificial. A experiência do  
CBRIS demonstra que essa abordagem pode ser realizada por meio de uma tecnologia  
informacional e relacional sofisticada, mas dependente de trabalho humano intensivo para  
localizar, selecionar, avaliar, organizar, traduzir, adaptar e comunicar informações em saúde  
baseada no vínculo. Essa exigência de recursos humanos limitou a ampliação do projeto ao  
longo da última década. Agora, no entanto, sob supervisão qualificada, a inteligência artificial  
pode assumir parte dessas tarefas informacionais, criando condições para que a abordagem seja  
aplicada a um número maior de pessoas e para que os profissionais concentrem sua atuação em  
atividades mais complexas e robustas, como escutar, interpretar contextos, reconhecer  
singularidades, deliberar eticamente e construir vínculos. A Literacia em Saúde Baseada no  
Vínculo emerge, assim, de uma nova possibilidade de divisão do trabalho informacional: à  
inteligência artificial podem ser atribuídas funções instrumentais de processamento e apoio,  
enquanto aos seres humanos devem ser preservadas as funções relacionais, interpretativas e  
éticas que conferem sentido à informação em saúde, conforme representado na Figura 4.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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Figura 4 Representação conceitual e simbólica da Literacia em Saúde Baseada no Vínculo (LSBV) na era da  
inteligência artificial  
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Fonte: Elaborado pela autora (2026)  
A proposição da Literacia em Saúde Baseada no Vínculo constitui uma etapa inicial de  
construção teórica. Seu desenvolvimento futuro poderá incluir o aprofundamento de suas  
dimensões, sua análise em diferentes contextos sociais e culturais e a formulação de práticas de  
formação profissional orientadas pela comunicação relacional, pela escuta e pela  
responsabilidade compartilhada. Sua contribuição central, entretanto, já pode ser enunciada: em  
saúde, a informação somente adquire sentido pleno quando inserida em relações humanas  
capazes de reconhecer a singularidade do outro.  
7 FINANCIAMENTO  
A autora agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico  
(CNPq), processos 406079/2023-4 Grupos Emergentes e 309698/2025-1 Produtividade em Pesquisa.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.  
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REFERÊNCIAS  
CARRAPATO, Victor Villatoro; GALVÃO, Maria Cristiane Barbosa. Inteligências artificiais  
respondem dúvidas sobre saúde de forma adequada? In: SEMINÁRIO INFORMAÇÃO,  
INOVAÇÃO E SOCIEDADE, 4., 2024, São Carlos. Anais [...]. São Carlos: UFSCar, 2024. p.  
siis/ivsiis/paper/view/532/443. Acesso em: 21 jul. 2026.  
CENTRO BRASILEIRO DE REFERÊNCIA EM INFORMAÇÃO EM SAÚDE (CBRIS).  
Ribeirão Preto: FMRP-USP, 2016-2026. Disponível em: https://www.cbris.com.br/ Acesso  
em: 20 jul. 2026.  
GALVÃO, M.C.B.et al. Disseminating health evidence summaries to increase evidence use in  
health care. Rev. Saúde Pública, v.52, n.57, 2018. Disponível em:  
HOLLIDAY, Oscar Jara. Para sistematizar experiências. Brasília: Ministério do Meio  
Ambiente, 2006. 128p.  
INSTITUTE OF MEDICINE (US) Committee on Health Literacy. Health literacy: a  
prescription to end confusion. Washington (DC): National Academies Press (US); 2004.  
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SIMONDS, S.K. Health Education as Social Policy. Health Education Monographs,  
2(1_suppl), 1-10, 1974.  
SØRENSEN, K. Defining health literacy: Exploring differences and commonalities. In: Okan,  
O.; Bauer, U.; Levin-Zamir, D.; Pinheiro, P.; Sørensen, K. (editors). International  
Handbook of Health Literacy: Research, Practice and Policy across the Life-Span. Bristol:  
Bristol University Press; 2019.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-18, e-145, jul./dez. 2026.