ARTIGO
Sob a perspectiva da PDT, observou-se que tais transformações ultrapassam questões
operacionais ou econômicas e alcançam dimensões fundamentais da saúde mental e da
identidade profissional. Conforme propõe Dejours (1992), o sofrimento relacionado ao trabalho
emerge não apenas das exigências técnicas da atividade, mas, sobretudo, das restrições impostas
à autonomia, ao reconhecimento e às possibilidades de construção de sentido. Nesse estudo, a
fragilização dos espaços coletivos de troca e cooperação, associada ao empobrecimento das
relações interpessoais, apontado por Marengo et al. (2022), promovido pelo atendimento
remoto, mostrou-se particularmente relevante, comprometendo processos centrais de
mobilização subjetiva e elaboração psíquica do sofrimento (Dejours, 1992; Dejours, 2022).
Os relatos revelaram ainda importantes ambiguidades na experiência da telemedicina.
Se, por um lado, os participantes reconheceram ganhos relacionados à organização do tempo,
à praticidade tecnológica e, em alguns casos, à melhoria da remuneração, por outro, também
expressaram sofrimento associado à perda do contato presencial, à insegurança clínica e ao
enfraquecimento do reconhecimento simbólico do trabalho médico. Esses achados reforçam
que os efeitos da telemedicina não são inerentes à tecnologia em si, mas dependem das formas
concretas de organização e gestão do trabalho, das possibilidades de cooperação e do espaço
concedido à autonomia e à criatividade profissional (Marengo et al., 2022; Dejours, 2022).
Os resultados sugerem que os impactos observados não decorrem da tecnologia em si,
mas das formas pelas quais ela é incorporada à organização do trabalho. Assim, a telemedicina
pode tanto favorecer experiências de autonomia e flexibilização quanto intensificar processos
de precarização, dependendo das condições concretas em que é implementada. Além dos
impactos produzidos pelas condições de trabalho, os resultados também evidenciaram os
recursos mobilizados pelos profissionais para lidar com as exigências e adversidades do
cotidiano laboral. Outro aspecto relevante refere-se às estratégias mobilizadas pelos
participantes para sustentar sua prática profissional e preservar a saúde mental. Psicoterapia,
atividade física, supervisão, reorganização da rotina, apoio social e preservação do tempo
extratrabalho apareceram como recursos importantes de enfrentamento, demonstrando que os
trabalhadores não permanecem passivos diante das exigências organizacionais, mas constroem
formas de resistência e adaptação frente ao sofrimento (Dejours, 1992; Macêdo, 2015).
Entretanto, os resultados também sugerem que determinadas estratégias defensivas
podem favorecer a naturalização da sobrecarga e do adoecimento, aproximando-se do processo
que Dejours (2007) descreve como banalização da injustiça social, no qual experiências
produtoras de sofrimento passam a ser percebidas como inevitáveis ou inerentes ao exercício
profissional. Dessa forma, conclui-se que a precarização do trabalho médico em contextos de
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ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.