ARTIGO  
Data de submissão: 26/06/2026 Data de aprovação: 00/00/20XX Data de publicação: 00/00/20XX  
A TELEMEDICINA E SEU IMPACTO NO TRABALHO E NA  
SAÚDE DOS MÉDICOS  
Carolina Fonseca Scartezini1  
PUC-GO  
Kátia Barbosa Macêdo2  
PUC-GO  
Suelma Rodrigues Duarte3  
UEG-GO  
______________________________  
Resumo  
Artigo conduzido para analisar à luz da Psicodinâmica do Trabalho a organização do trabalho, as relações laborais  
e a mobilização subjetiva de médicos em contextos da telemedicina e de plataformas digitais, considerando os  
impactos sobre a saúde mental. Como estudo qualitativo, descritivo e exploratório, realizaram-se entrevistas  
semiestruturadas. Resultados demonstraram vínculos precários, terceirização, intensificação laboral, insegurança  
profissional, ausência de reconhecimento institucional e fragilização das relações de trabalho. Embora tenham  
reconhecido benefícios associados à flexibilidade, à organização do tempo e à praticidade tecnológica, também  
descreveram sofrimento relacionado ao isolamento, à insegurança clínica e à perda da dimensão relacional do  
cuidado. Estratégias de enfrentamento como psicoterapia, atividade física, apoio social e reorganização da rotina  
foram utilizadas para preservação da saúde mental. Observou-se que a telemedicina apresentou efeitos  
ambivalentes sobre o trabalho. Quando inserida em contextos de precarização, mostrou-se associada a aspectos de  
atenção quanto à saúde mental.  
1
Palavras-chave: trabalho por plataforma; psicodinâmica do trabalho; saúde mental; organização do trabalho;  
plataformização do trabalho.  
TELEMEDICINE AND ITS IMPACT ON THE LABOR AND HEALTH OF  
MEDICAL PROFESSIONALS  
Abstract  
This study was conducted to analyze, from the perspective of the Psychodynamics of Work, the organization of  
work, labor relations, and the subjective mobilization of physicians working in telemedicine and digital platform  
contexts, considering the impacts on mental health. As a qualitative, descriptive, and exploratory study, semi-  
structured interviews were carried out. The findings revealed precarious employment relationships, outsourcing,  
work intensification, professional insecurity, lack of institutional recognition, and the weakening of labor relations.  
Although participants acknowledged benefits associated with flexibility, time management, and technological  
convenience, they also reported suffering related to social isolation, clinical insecurity, and the loss of the relational  
dimension of care. Coping strategies such as psychotherapy, physical activity, social support, and the  
reorganization of daily routines were adopted to preserve mental health. The results indicate that telemedicine has  
1 Graduanda em Psicologia pela PUC-CO. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-5600-312X  
2
Pós-doutora em Educação pela UEC e CNAM, França. Doutora em Psicologia pela PUC-SP. Mestre  
em  
Psicologia  
pela  
EAE,  
Barcelona.  
Mestre  
em  
Educação  
pela  
UFG.  
Site:  
3
Doutoranda em Psicologia pela PUC-GO. Mestre em Gestão, Educação e Tecnologia pela UEG-GO.  
Administradora pela Universo-RJ. Especialista em Psicologia e Psicanálise. Especialista em  
Marketing pela UCAN-RJ. MBA em Recursos Humanos pela Unigoiás-GO. Docente e pesquisadora  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
     
ARTIGO  
ambivalent effects on work. When embedded in contexts of labor precarization, it appears to be associated with  
factors that require particular attention regarding workers’ mental health.  
Keywords: platform work; psychodynamics of Work; mental health; work organization; labor platformization.  
LA TELEMEDICINA Y SU IMPACTO EN EL TRABAJO Y LA SALUD DE LOS  
MÉDICOS  
Resumen  
El presente artículo analiza, a la luz de la Psicodinámica del Trabajo, la organización laboral, las relaciones de  
trabajo y la movilización subjetiva de los médicos en los contextos de la telemedicina y las plataformas digitales,  
considerando sus impactos en la salud mental. Se diseñó un estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio,  
mediante la aplicación de entrevistas semiestructuradas. Los resultados demostraron la presencia de vínculos  
precarios, tercerización, intensificación laboral, inseguridad profesional, ausencia de reconocimiento institucional  
y debilitamiento de las relaciones laborales. Si bien los participantes reconocieron beneficios asociados a la  
flexibilidad, la gestión del tiempo y la practicidad tecnológica, también describieron un sufrimiento vinculado al  
aislamiento, la inseguridad clínica y la pérdida de la dimensión relacional del cuidado. Para preservar la salud  
mental, se implementaron estrategias de afrontamiento como la psicoterapia, la actividad física, el apoyo social y  
la reorganización de la rutina. Se observó que la telemedicina presenta efectos ambivalentes sobre el trabajo;  
cuando se inserta en entornos de precarización, se asocia con factores de riesgo para la salud mental.  
Palabras clave: trabajo en plataformas; psicodinámica del trabajo; salud mental; organización del trabajo;  
plataformización del trabajo.  
2
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
1 INTRODUÇÃO  
O trabalho ocupa papel central na vida social e subjetiva, funcionando não apenas como  
meio de subsistência, mas também como espaço de construção identitária, realização pessoal e  
reconhecimento social. Segundo Dejours (1992), o trabalho participa diretamente da  
constituição da subjetividade, sendo atravessado por processos de reconhecimento, cooperação  
e mobilização subjetiva, fundamentais para a manutenção da saúde mental do trabalhador. Na  
perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho (PDT), a atividade laboral envolve constantes  
enfrentamentos diante das exigências, das limitações organizacionais e das relações  
socioprofissionais, podendo produzir tanto experiências de prazer quanto de sofrimento  
psíquico.  
No contexto contemporâneo, observa-se o avanço da precarização, marcado pela  
intensificação de demandas, inseguranças, instabilidade laboral, flexibilização dos vínculos  
empregatícios e do reconhecimento profissional. Tais transformações, segundo Palma et al.  
(2021), têm sido potencializadas pelo avanço das tecnologias digitais e pela expansão das  
plataformas de trabalho, fenômeno que também alcança o campo da saúde. Nesse cenário, a  
telemedicina emerge como importante modalidade de assistência, especialmente após a  
pandemia de Covid-19, reconfigurando a organização do trabalho médico e produzindo novos  
modos de gestão, controle e execução da atividade. A pressão por produtividade, a sobrecarga  
assistencial e a fragilidade dos vínculos de trabalho configuram-se como fatores de desgaste  
que afetam negativamente a saúde mental e a qualidade de vida.  
3
Embora a telemedicina apresente benefícios relacionados à ampliação do acesso aos  
serviços de saúde e à flexibilização do trabalho, Marengo et al. (2022) suscitam  
questionamentos acerca do empobrecimento das relações interpessoais, da intensificação do  
trabalho e da perda de autonomia profissional. Considerando tais aspectos, a presente pesquisa  
parte da reflexão: de que modo a precarização do trabalho dos médicos, intensificada pelas  
transformações associadas à telemedicina e às plataformas digitais, impacta a saúde mental  
desses trabalhadores à luz da Psicodinâmica do Trabalho? O objetivo consistiu em analisar,  
segundo a abordagem teórico-metodológica da PDT, a organização do trabalho, as relações  
laborais e a mobilização subjetiva de médicos que atuavam em diferentes contextos de trabalho  
mediados por tecnologias digitais, identificando seus impactos sobre a saúde mental.  
Espera-se, com esta pesquisa, evidenciar que a precarização do trabalho médico não se  
restringe a aspectos contratuais ou econômicos, mas repercute em diversos aspectos, até a  
construção identitária. Pretende-se, ainda, contribuir para a ampliação do debate sobre os  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
impactos psicossociais da plataformização do trabalho em saúde, oferecendo subsídios para  
reflexões acerca de condições laborais mais éticas, sustentáveis e promotoras de saúde mental.  
2 TRANSFORMAÇÕES NO TRABALHO EM SAÚDE: TELEMEDICINA E A  
PSICODINÂMICA DO TRABALHO  
O trabalho constitui uma atividade central no processo de humanização, permitindo ao  
sujeito transformar a realidade e manifestar sua criatividade, além de desempenhar papel  
fundamental na construção da identidade e na atribuição de sentido à vida (Oltramari; Gemelli,  
2020). Na perspectiva da PDT, o perfil do profissional depende do reconhecimento obtido nas  
relações laborais; quando o trabalhador é reconhecido por seus pares e superiores, sua  
individualidade se fortalece, enquanto a ausência desse reconhecimento pode gerar alienação e  
sofrimento psíquico (Dejours, 1992). Dessa forma, a fragilização das condições e relações de  
trabalho pode comprometer as vivências de prazer e sofrimento, produzindo riscos  
ocupacionais e psicossociais. Essas transformações assumem particular relevância no contexto  
contemporâneo, marcado pela incorporação crescente de tecnologias digitais aos processos de  
trabalho.  
4
Segundo Faria e Macêdo (2026), o teletrabalho instituiu-se como prática organizacional  
a partir do contexto da pandemia de Covid-19. Nesse contexto, as práticas da Telemedicina e  
Telessaúde demandam instrumentos regulatórios capazes de assegurar uma prática ética, segura  
e legítima (Marengo et al., 2022). A adesão às novas tecnologias e modalidades de atendimento,  
segundo Palma et al. (2021), nem sempre ocorre de forma imediata entre os profissionais de  
saúde. Sob essa lógica, a experiência prática e a cooperação entre trabalhadores perdem espaço  
para mecanismos de controle burocrático, indicadores quantitativos e metas padronizadas,  
reconfigurando a organização do trabalho em saúde (Dejours, 2022).  
No trabalho médico, tais mudanças não se restringem à dimensão técnica ou  
organizacional; têm alcançado também aspectos subjetivos relacionados à construção da  
identidade profissional. No caso dos médicos, as mudanças organizacionais decorrentes da  
telemedicina e da intensificação tecnológica podem contribuir para o empobrecimento da  
profissão, reduzindo a autonomia, desvalorizando competências construídas na prática  
cotidiana e fragilizando referências simbólicas (Dejours, 2022).  
Nesse contexto, as transformações nas condições e na organização do trabalho médico  
repercutem diretamente nos processos subjetivos envolvidos na relação do sujeito com o  
trabalho, especialmente na maneira como as pulsões, os desejos e as possibilidades de  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
realização encontram vias de expressão e elaboração psíquica. Os desejos e impulsos que não  
encontram satisfação imediata podem ser direcionados às atividades criativas, intelectuais ou  
relacionadas ao trabalho, atribuindo sentido às experiências pessoais e possibilitando formas de  
realização reconhecidas e valorizadas socialmente (Dejours, 1992).  
A compreensão desses processos exige considerar os mecanismos psíquicos por meio  
dos quais o sujeito atribui sentido ao trabalho e elabora as tensões decorrentes da realidade  
laboral. Partindo de Freud, Dejours (1992) destaca que a criação tem origem nas pulsões e que  
a frustração dos desejos produz angústia; embora o princípio do prazer oriente essa dinâmica,  
o desprazer atua como limite diante dos elementos penosos da realidade. Nesse contexto, a  
sublimação configura-se como mecanismo de substituição capaz de transformar tensões  
psíquicas em investimento produtivo e simbólico. Nessa perspectiva, sublimação e identidade  
constituem nexos centrais entre sofrimento e possibilidade de saúde, sendo amplamente  
condicionadas pela organização do trabalho, que pode favorecer ou bloquear tais vias de  
elaboração psíquica (Dejours, 1992). Quando essas possibilidades de elaboração encontram  
obstáculos na organização do trabalho, aumentam as chances de surgimento do sofrimento  
psíquico.  
5
Quando as condições laborais restringem autonomia, reconhecimento e possibilidades  
criativas, o trabalho deixa de operar como espaço de simbolização e realização, tornando-se  
potencial fonte de sofrimento. Nesse cenário, demandas contemporâneas associadas à  
polivalência, agilidade e inovação, quando impostas sem suporte material e organizacional  
adequado, tendem a intensificar a sobrecarga e as tensões ocupacionais (Pereira; Macêdo,  
2021). Diante dessas pressões, os trabalhadores mobilizam estratégias defensivas como  
isolamento, negação, racionalização e banalização, mecanismos que buscam preservar o  
equilíbrio psíquico, embora possam obscurecer as origens organizacionais do sofrimento  
(Dejours, 1992). No plano coletivo, tais estratégias também podem cristalizar-se em ideologias  
defensivas, dificultando a problematização crítica e a transformação efetiva das condições de  
trabalho (Macêdo, 2015).  
A persistência desses mecanismos evidencia a necessidade de dispositivos capazes de  
favorecer a elaboração coletiva e clínica do sofrimento relacionado ao trabalho. Nesse sentido,  
surge a necessidade de uma clínica do trabalho capaz de atuar em múltiplos níveis, do  
intrapsíquico ao institucional e intergrupal, uma vez que entraves nesses campos comprometem  
a manutenção de espaços coletivos de deliberação e elaboração do sofrimento (Dejours, 1992).  
Nessa perspectiva, Dejours (2019) ressalta a importância de estratégias de sintonia e  
troca na prevenção de conflitos intoleráveis, bem como de diferentes formas de regulação  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
psíquica, como projeção, identificação e simbolização, na organização da expressão  
sintomática. Diante do apresentado, o sintoma psicossomático é compreendido como  
modalidade de elaboração, ainda que problemática, das tensões entre corpo e psiquismo,  
exigindo uma escuta clínica atenta às histórias de desejo, perda, defesa e simbolização presentes  
em cada sujeito.  
3 MÉTODO  
O presente trabalho consistiu em um estudo de caso descritivo e exploratório (Bauer;  
Gaskell, 2008), fundamentado na abordagem da Psicodinâmica do Trabalho segundo Dejours  
(2004). Como técnicas de coleta de dados, utilizaram-se entrevistas individuais.  
Realizaram-se entrevistas em profundidade, presenciais, uma vez que esse  
procedimento favorece a escuta clínica e a análise das vivências subjetivas relacionadas ao  
trabalho (Dejours, 1992; 2004). Considerando os limites temporais para a realização deste  
estudo, foram executadas apenas as etapas de pré-pesquisa e pesquisa propriamente dita, sem a  
conclusão integral do processo metodológico proposto por Dejours (1992). Dessa forma, a etapa  
de devolutiva aos participantes não foi realizada.  
6
Inicialmente, buscaram-se em plataformas de telemedicina para identificação de  
possíveis participantes. Para a seleção da amostra, utilizaram-se tanto a divulgação da pesquisa  
em redes sociais quanto as próprias plataformas digitais. Após a identificação dos profissionais,  
realizou-se contato por meio do WhatsApp, com o objetivo de convidá-los a participar da  
pesquisa. Os participantes foram entrevistados individualmente, a partir de um roteiro  
semiestruturado, em entrevistas realizadas pela plataforma Microsoft Teams.  
Durante a pré-pesquisa, realizou-se o levantamento da produção científica relacionada  
ao tema, criando condições objetivas para a realização da pesquisa. A pesquisa propriamente  
dita envolveu a capacitação dos participantes, a realização das entrevistas, a constituição do  
banco de dados, a observação clínica e a interpretação do material produzido.  
Foram realizadas 10 entrevistas individuais com médicos com registro profissional  
regularizado junto ao Conselho Regional de Medicina, que atuavam por meio de plataformas  
digitais de telemedicina e/ou utilizavam ferramentas eletrônicas em sua prática profissional.  
As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas por meio da Análise Clínica do  
Trabalho (Machado; Macêdo, 2022). Para garantir a confiabilidade e a validade do processo  
analítico, recorreu-se à triangulação de juízes tanto na conferência das transcrições quanto na  
análise clínica do material. A triangulação foi realizada em grupo com os demais pesquisadores  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
vinculados ao projeto, sob supervisão da orientadora, a partir de um trabalho reflexivo de  
perlaboração.  
4 DESENVOLVIMENTO  
Os resultados mostraram que metade dos participantes (50%) era do sexo masculino  
e a outra metade (50%), do sexo feminino. A média de idade foi de 37,6 anos, variando entre  
27 e 70 anos. Quanto ao estado civil, 50% eram solteiros, 30% casados e 20% encontravam-se  
em união estável. Em relação à composição familiar, uma participante possuía um filho, outra  
possuía dois filhos e os demais participantes (80%) não tinham filhos. Os participantes  
concluíram a graduação em Medicina entre os anos de 1980 e 2023. Quanto à formação  
complementar, 30% possuíam residência médica concluída e 70% possuíam formação em nível  
de pós-graduação. Em relação às especialidades, 40% eram psiquiatras e 30% pediatras. Os  
participantes concluíram ou encontravam-se cursando formações em Preceptoria e Medicina da  
Família e da Comunidade; Auditoria Médica, Administração Hospitalar, Cuidados Paliativos e  
Saúde Pública; Preceptoria e Geriatria; Perícia Judicial e Unidade de Terapia Intensiva; Gestão  
de Unidade de Saúde; Pediatria e Neonatologia; Farmácia, Medicina Legal e Psiquiatria da  
Infância e da Adolescência; e Terapia Cognitivo-Comportamental.  
7
No que se refere ao campo de atuação profissional, 20% dos participantes trabalhavam  
exclusivamente na rede privada; 40% atuavam na rede pública, na Universidade Federal de  
Goiás, na Unidade Básica de Saúde, na Polícia Científica do Estado de Goiás e no Centro de  
Atenção Psicossocial (CAPS) e 20% exerciam atividades em ambos os setores. Dentre as  
plataformas e ferramentas digitais utilizadas pelos médicos entrevistados, destacaram-se  
iClinic, Dr. Online, Doctoralia, e-SUS, CELK, Projudi, WhatsApp, Microsoft Teams e Google  
Meet.  
Quando questionados sobre as condições de trabalho, a maioria dos participantes alegou  
não encontrar dificuldades para conquistar uma vaga de emprego, uma vez que a atuação  
médica é altamente requisitada. No entanto, os relatos apresentaram certa ambiguidade:  
enquanto alguns participantes identificavam diversas oportunidades de atuação, outros  
percebiam limitações e desafios importantes nesse processo de inserção profissional. Em  
específico, um dos participantes relatou que:  
É fácil ser contratado, porém, são empregos com muitos desafios absurdos. Assim,  
atender em lugares em que você tem que levar cadeira, atender populações muito  
fragilizadas que não têm acesso a nada além do médico ali. Então muito trabalho  
precarizado. (P1)  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
Além disso, alguns participantes apontaram a crescente substituição de vínculos formais  
por formas terceirizadas de contratação. Um dos médicos entrevistados descreveu esse processo  
da seguinte maneira:  
A nível de concurso público, tem muito pouco concurso público, né? A tendência  
agora é a terceirização médica, que tá vindo bem forte. (...) Eu era contratado do estado  
do Mato Grosso, aí eles mandaram os médicos embora e colocaram uma empresa  
terceirizada e daí a gente perdeu os direitos trabalhistas, basicamente (P3).  
No que se refere às condições materiais de trabalho, os participantes que atuavam na  
rede pública de saúde apresentaram relatos de contextos marcados pela precarização. Foram  
mencionadas a falta de materiais, a escassez de equipamentos de proteção, a ausência de  
ambulâncias, a utilização de espaços adaptados ou inadequados para o atendimento e entraves  
burocráticos que dificultam ou retardam a emissão de diagnósticos.  
Além das limitações estruturais, alguns médicos relataram sentimentos de insegurança  
relacionados ao contexto social dos territórios onde atuavam. Em determinadas regiões,  
frequentemente associadas ao tráfico de drogas e a situações de vulnerabilidade social, os  
participantes mencionaram receio diante da violência local e dos riscos presentes no exercício  
cotidiano da profissão. Algumas das queixas mais recorrentes entre os participantes referiam-  
se à informalidade na atribuição de tarefas e à ausência de vínculo empregatício formal,  
aspectos frequentemente associados à sobrecarga de trabalho e à insegurança financeira.  
Nesse contexto, um dos participantes relatou o receio constante de ser demitido em razão  
de pressões exercidas por autoridades políticas locais, que exigiam a realização de atendimentos  
privilegiados. Os participantes relataram que a informalidade dos vínculos repercutia  
negativamente na remuneração e no reconhecimento profissional. Nesse contexto, associada  
aos efeitos da pandemia de Covid-19, a possibilidade de receber integralmente pelos  
atendimentos figurou entre os motivos que favoreceram a adesão à telemedicina. O seguinte  
trecho ilustra essa realidade:  
8
Eu já tinha um quantitativo grande de pacientes por essa clínica popular. O valor que  
eles pagavam era R$100 na época, a empresa me passava R$30 e ficava com R$70. E  
aí eu usei da pandemia ao meu favor (...) ao invés de ganhar R$30, passei a ganhar  
R$100 e mantive os mesmos pacientes e comecei a fazer no meu tempo. Então, pra  
mim, isso foi transformador. (P9)  
No que se refere às relações socioprofissionais, os participantes descreveram, de modo  
geral, relações horizontais positivas entre médicos e demais profissionais da saúde. Foram  
frequentes os relatos que destacavam a cooperação, a troca de conhecimentos e o trabalho em  
equipe como aspectos importantes para a realização da atividade profissional. Em uma das  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
clínicas em que atuou, uma participante ressaltou a importância de um trabalho interdisciplinar  
pautado pelo respeito e pela construção coletiva do cuidado:  
Não existia essa questão da figura do médico ser o dono da verdade, nem mesmo ser  
o profissional de referência do paciente. O profissional de referência era aquele  
profissional que o paciente tivesse mais afinidade, então a gente sempre tinha  
discussão em equipe. (P10)  
Os participantes também relataram dificuldades relacionadas à organização e à gestão  
do trabalho. Foram mencionados conflitos decorrentes de diferentes abordagens teóricas, além  
de jornadas excessivas e atividades frequentemente não remuneradas, situações que  
contribuíam para sentimentos de sobrecarga e falta de reconhecimento. Nesse sentido, uma das  
participantes afirmou que “infelizmente, o sistema público de saúde, ele quer números, ele não  
preza pelo bom atendimento” (P10). Além disso, a mesma participante relatou ter sofrido  
pressões de autoridades políticas para realizar atendimentos privilegiados, inclusive  
envolvendo pacientes considerados violentos.  
Os participantes relataram experiências marcadas tanto por atitudes de descortesia,  
descritas como formas de violência gratuita, quanto pela percepção de que alguns gestores não  
possuíam conhecimento técnico ou preparo adequado para exercer suas funções. De modo  
semelhante, diversos participantes reconheceram que são submetidos a jornadas extensas e  
metas frequentemente consideradas inalcançáveis. Diante desse cenário, alguns buscaram  
outros campos de atuação, sendo a telemedicina frequentemente mencionada como uma  
alternativa possível, enquanto outros recorreram a processos de racionalização e negação para  
lidar com as exigências do trabalho. As dificuldades relacionadas à gestão também apareceram  
nos relatos sobre a precarização dos serviços públicos de saúde. Nesse contexto, P10 descreveu  
conflitos decorrentes de sua tentativa de reivindicar melhores condições assistenciais para os  
pacientes:  
9
Depois de um tempo eu entendi que, na verdade, (...) eu fui demitida porque eu  
pressionei a Secretaria de Saúde no sentido de criar um ambulatório. Eu falei que  
aquele CAPS daquele jeito não ia ter como funcionar, que era uma quantidade muito  
grande de pacientes (...) Aí acaba que eu acho que a Secretaria de Saúde ficou  
descontente com a minha postura porque eles não queriam gastar dinheiro criando um  
ambulatório porque eles iam ter que contratar mais um ou dois médicos. (P10)  
No que se refere à telemedicina, os participantes relataram que a incorporação das  
plataformas digitais, suas ferramentas inclusas, é percebida como muito útil principalmente na  
elaboração de prontuários e receituários, favorecendo maior praticidade e organização no  
exercício profissional.  
Nesse sentido, esses recursos contribuem para a agilidade dos  
atendimentos, o armazenamento seguro de informações e a otimização das rotinas de trabalho  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
dos profissionais. De forma geral, os participantes expressaram não ter dificuldades  
significativas para se adaptar ao atendimento online e que, inclusive, preferiam essa  
modalidade, percebida como vantajosa em diferentes aspectos da prática profissional. Muitos  
médicos manifestaram sentir falta da convivência direta com os pacientes e das trocas  
cotidianas com colegas de trabalho, elementos considerados importantes para a construção do  
vínculo e para a realização da atividade profissional. Uma das participantes relatou que essa  
ausência de contato pode gerar insegurança tanto para o profissional quanto para o paciente:  
A gente recebe muitas vezes uma criança que fez um [atendimento] online (...) e a  
pessoa não fica confiante, a pessoa não se sente segura, fica insegura em relação ao  
que vai fazer e o que é, de fato. E acaba que esses vêm pra gente depois pra gente  
poder botar a cabeça dessas mães no lugar e explicar direitinho. Então eu tenho muito  
receio de, de repente, eu estar fazendo esse tipo de coisa, de não dar uma informação,  
de deixar passar batido alguma coisa a que eu deveria estar prestando atenção. (P6)  
Sob outra perspectiva, alguns participantes destacaram que determinadas dimensões da  
prática médica permanecem fortemente vinculadas ao encontro presencial. Nesses casos, a  
ausência de elementos como o contato físico, a observação da linguagem não verbal e a  
interação direta com os pacientes foi percebida como uma limitação importante da  
telemedicina. Paralelamente, também foi exposto um problema que antecede a própria  
experiência com a telemedicina e que remete ao processo de formação médica. Segundo os  
participantes, o treinamento prático realizado em manequins pode limitar o desenvolvimento  
de habilidades interpessoais e emocionais necessárias ao atendimento humanizado dos  
pacientes. Uma das participantes descreveu essa preocupação da seguinte forma:  
10  
E algumas faculdades com essa coisa de examinar boneco, com boneco você não  
conversa, então eles [os estudantes] não aprendem a ter esse relacionamento de ter a  
empatia, de ter a própria simpatia mesmo, os cuidados na fala, de saber ouvir. (P6)  
Destacam-se os resultados sobre a utilização da telemedicina. Os participantes  
demonstraram que os instrumentos operacionais digitais favorecem a prática médica: “Hoje em  
dia essa ferramenta de que a gente está falando aqui é muito importante porque te dá os  
guidelines, te dá a segurança que você pode fazer” (P4). P10 expressou uma vivência de prazer  
associada ao sentido atribuído ao trabalho, à possibilidade de ajudar os pacientes e ao  
sentimento de coerência ética com sua trajetória profissional. Embora inicialmente não tivesse  
interesse pela área de dependência química, decidiu assumir a função por acreditar que poderia  
contribuir naquele contexto. A participante destacou que essa experiência lhe proporcionou  
aprendizado, permitiu aplicar conhecimentos da psiquiatria e favoreceu mudanças importantes  
no serviço.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
Os participantes relataram que a instabilidade dos contratos, a ausência de garantias  
trabalhistas e a imprevisibilidade da remuneração produziam sentimentos recorrentes de  
insegurança e preocupação com a manutenção das condições de vida e trabalho. Além das  
condições materiais e contratuais, os relatos também evidenciaram fragilizações nos processos  
de reconhecimento simbólico. Os participantes demonstraram suas percepções de invisibilidade  
profissional e de menor valorização do trabalho realizado, especialmente em contextos de  
atendimento remoto, apontando para dificuldades na validação social dos investimentos  
subjetivos realizados pelos trabalhadores.  
Foi relatada uma insegurança financeira; os participantes demonstraram um sofrimento  
associado à sobrecarga de trabalho, às jornadas extensas e à pressão por produtividade. Em  
alguns casos, as exigências organizacionais foram descritas como incompatíveis com a  
qualidade da assistência desejada pelos profissionais, gerando sentimentos de frustração,  
impotência e desgaste emocional. Os resultados evidenciam que o trabalho médico foi marcado  
por tensões decorrentes da precarização dos vínculos, das limitações estruturais dos serviços e  
das exigências organizacionais. Embora a telemedicina tenha sido percebida como uma  
ferramenta capaz de ampliar a autonomia e facilitar processos de trabalho, os participantes  
também apontaram limitações relacionadas à construção do vínculo terapêutico e ao  
reconhecimento profissional.  
11  
5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS  
Inicialmente, entendeu-se como se dá a inserção do médico recém-formado no mercado  
de trabalho. O processo de contratação permite identificar as formas mais frequentes, bem  
como as limitações e impasses encontrados pelos profissionais no início da carreira. Os relatos  
sobre a predominância de contratações por meio de pessoa jurídica em detrimento de vínculos  
celetistas sugerem um processo de precarização das relações de trabalho, destacadas por  
Marengo et al. (2022). Essa desvalorização é marcada pela redução das garantias trabalhistas e  
pelo aumento da insegurança ocupacional. Conforme argumenta Macêdo (2015), tais  
transformações repercutem não apenas nas condições objetivas de trabalho, mas também na  
experiência subjetiva dos trabalhadores (Dejours, 1992), ao produzirem instabilidade,  
vulnerabilidade e fragilização dos processos de reconhecimento.  
Sobre as condições de trabalho, o discurso dos participantes evidencia que a facilidade de  
inserção no mercado não necessariamente corresponde à existência de condições adequadas de  
trabalho. Nesse contexto, outro aspecto recorrente nos relatos foi a frequência com que os  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
participantes mencionaram a contratação por meio de CNPJ, frequentemente associada a  
processos de indicação realizados por professores, outros médicos, familiares e, em alguns  
casos, por intermediações políticas. A recorrência de contratos terceirizados, remuneração  
variável e ausência de garantias trabalhistas evidenciam um cenário de flexibilização que  
desloca para o trabalhador a responsabilidade pela própria estabilidade e sobrevivência  
profissional. Esse processo acompanha transformações mais amplas observadas no mercado de  
trabalho em saúde, caracterizadas pela ampliação de formas flexíveis de contratação e pela  
progressiva substituição de vínculos estáveis por modalidades que transferem ao trabalhador  
parte dos riscos inerentes à atividade laboral.  
Nesse contexto, a aparente facilidade de inserção profissional não elimina situações de  
vulnerabilidade, mas pode coexistir com relações de trabalho marcadas pela instabilidade e pela  
fragilização de direitos. Segundo Dejours (2022) e Macêdo (2015), o sofrimento emerge não  
apenas das exigências técnicas da atividade médica, mas sobretudo da impossibilidade de  
exercer o trabalho em condições consideradas eticamente satisfatórias pelos próprios  
profissionais. Essas condições de trabalho também se articulam com as formas precárias de  
contratação e organização laboral. Tal situação evidencia como a fragilidade dos vínculos de  
trabalho pode ampliar a vulnerabilidade dos profissionais diante de interferências externas na  
prática médica.  
12  
Nesse ponto, os achados revelam que a precarização das condições de trabalho não se  
limita à insuficiência de recursos materiais para o exercício profissional, mas alcança dimensões  
subjetivas fundamentais da experiência laboral, conforme afirmava Dejours (1992; 2004). Na  
abordagem da Psicodinâmica do Trabalho, observa-se que as condições organizacionais  
descritas pelos participantes interferem diretamente nas possibilidades de reconhecimento,  
cooperação, construção identitária e elaboração psíquica do sofrimento. Além dos aspectos  
relacionados aos vínculos empregatícios, os resultados indicam que as condições em que o  
trabalho é organizado também desempenham papel central na produção de experiências de  
prazer e sofrimento, conforme Dejours (2022). Na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho,  
segundo Batista e Macêdo (2022), a organização laboral constitui dimensão fundamental da  
experiência subjetiva, uma vez que delimita margens de autonomia, formas de cooperação e  
possibilidades de reconhecimento.  
Sobre as dificuldades relacionadas à organização e à gestão, os achados demonstram  
situações de interferências externas que podem comprometer a autonomia profissional e  
tensionar a prática médica. Nesse contexto, o discurso dos participantes evidencia a percepção  
de que critérios quantitativos frequentemente se sobrepõem à qualidade da assistência prestada.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
Além disso, os relatos demonstram tensões entre as necessidades assistenciais identificadas  
pelos profissionais e os limites impostos pela gestão dos serviços, revelando como a  
organização do trabalho pode restringir iniciativas voltadas à ampliação da qualidade do  
cuidado oferecido à população. Com relação à telemedicina, os achados sugerem que a  
incorporação das tecnologias digitais pode ampliar a eficiência das atividades cotidianas,  
oferecendo suporte técnico que auxilia a execução do trabalho e reduz parte das demandas  
operacionais enfrentadas pelos médicos. Os resultados indicam que ferramentas digitais  
voltadas à elaboração de prontuários, emissão de receitas e apoio à tomada de decisão clínica  
são percebidas como recursos que favorecem maior agilidade, organização e segurança na  
realização das atividades profissionais.  
Entretanto, apesar da avaliação positiva da telemedicina, os relatos também evidenciaram  
limitações relacionadas à ausência do contato presencial. A impossibilidade de acessar  
elementos da comunicação não verbal, do toque e da presença física foi percebida como fator  
que compromete tanto a qualidade do cuidado quanto a própria experiência subjetiva do  
trabalho. A sensação de “sumir na multidão” e a percepção de menor reconhecimento do  
atendimento remoto indicam fragilizações nos processos de reconhecimento simbólico que  
sustentam a identidade profissional (Dejours, 1992).  
13  
Os relatos sobre o processo de formação médica sugerem que os desafios relacionados à  
comunicação, à empatia e à construção de vínculos não se restringem ao contexto da  
telemedicina, mas também envolvem aspectos da formação profissional. As competências  
relacionais tornam-se especialmente relevantes em modalidades de atendimento mediadas por  
tecnologias, nas quais parte dos elementos tradicionalmente presentes na interação clínica  
encontra-se reduzida ou modificada. Complementarmente, os resultados sugerem que  
determinadas habilidades comunicacionais e emocionais assumem papel ainda mais relevante  
diante das transformações contemporâneas do trabalho médico.  
Nesse sentido, a telemedicina aparece simultaneamente como estratégia de enfrentamento  
da precarização e como expressão dela, conforme descrito por Dejours (2019). Ao mesmo  
tempo em que possibilita maior controle sobre horários e remuneração em alguns contextos,  
também pode intensificar a lógica produtivista, o isolamento profissional e a fragmentação das  
relações coletivas de trabalho. Essa categoria revela que a tecnologia não produz efeitos  
homogêneos sobre a experiência laboral. Seus impactos dependem das condições  
organizacionais nas quais são implementados.  
Nos resultados obtidos, a mesma ferramenta que amplia a autonomia e favorece maior  
controle sobre a rotina profissional também pode contribuir para a intensificação do ritmo de  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
trabalho e para a fragilização dos espaços coletivos de cooperação. Tal cenário aproxima-se das  
análises de Dejours (2022) e de Macêdo (2015) acerca das novas formas de gestão  
contemporânea, nas quais mecanismos digitais de controle tendem a substituir espaços de  
cooperação e deliberação coletiva.  
Esse conjunto de elementos evidencia que a atividade médica contemporânea é  
atravessada por transformações importantes na organização do trabalho, especialmente diante  
da expansão das tecnologias digitais, da precarização dos vínculos e das mudanças nas formas  
de gestão e contratação. Além de repercutirem nas condições concretas de exercício  
profissional, tais aspectos também produzem efeitos sobre a maneira como os trabalhadores  
vivenciam seu trabalho e atribuem sentido à própria atividade.  
Os resultados apresentados até aqui evidenciam que as condições materiais, os vínculos  
empregatícios, os modelos de gestão e a incorporação das tecnologias digitais constituem  
elementos centrais da organização do trabalho médico contemporâneo, conforme preconizavam  
Dejours (2022) e Macêdo (2015). Entretanto, compreender tais aspectos não é suficiente para  
explicar os efeitos produzidos sobre os trabalhadores. Torna-se necessário analisar também  
como essas condições são subjetivamente vivenciadas pelos profissionais.  
14  
Se a categoria Organização do Trabalho permitiu compreender as condições objetivas em  
que a atividade médica é realizada, a Mobilização Subjetiva, descrita por Macêdo (2015),  
possibilita analisar como essas condições são vivenciadas pelos trabalhadores. Nessa  
perspectiva, examinam-se os processos relacionados às vivências de prazer e sofrimento, bem  
como as estratégias mobilizadas pelos sujeitos para preservar a saúde mental diante das  
exigências do trabalho.  
No eixo da Mobilização Subjetiva, segundo Dejours (2022), analisaram-se os aspectos do  
trabalho que repercutem diretamente na saúde mental dos trabalhadores, produzindo vivências  
de prazer e sofrimento. Nesse sentido, as vivências de sofrimento, segundo Macêdo (2015),  
tendem a emergir quando as capacidades psíquicas são restringidas, como em situações de  
redução da autonomia, não reconhecimento, sobrecarga ou rigidez excessiva da organização do  
trabalho. Por outro lado, as vivências de prazer são favorecidas quando o trabalho possibilita  
espaços de criatividade, liberdade, atribuição de sentido e reconhecimento.  
Sobre as vivências de prazer, destacou-se que as ferramentas digitais utilizadas na  
telemedicina podem oferecer importante suporte ao exercício profissional, ao fornecer  
orientações e aumentar a segurança na tomada de decisão clínica. Evidenciou-se que esses  
recursos não são percebidos apenas como instrumentos operacionais, mas também como  
elementos que auxiliam a prática médica, conferindo amparo ao trabalho cotidiano. Tais  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
elementos reforçam a importância da utilidade social e do reconhecimento de si na atividade  
realizada, aspectos que, segundo Dejours (1992), desempenham papel central na construção de  
experiências de prazer e na sustentação da identidade profissional. Além disso, a possibilidade  
de maior autonomia sobre a organização da rotina de trabalho aparece como elemento  
potencialmente favorecedor de experiências positivas, especialmente em contextos nos quais  
os profissionais percebem maior controle sobre o próprio fazer.  
Apesar dessas experiências positivas, os relatos também evidenciaram importantes fontes  
de sofrimento relacionadas às condições de trabalho e às formas contemporâneas de  
organização da atividade médica. Nesse contexto, destacaram-se aspectos que Macêdo (2015)  
associou à precarização dos vínculos, à sobrecarga laboral e à fragilização dos processos de  
reconhecimento profissional. As vivências de sofrimento estiveram associadas às experiências  
de precarização e à organização do trabalho. A insegurança financeira emergiu como um dos  
principais fatores de sofrimento, especialmente entre profissionais sem vínculo empregatício  
formal ou submetidos a relações de trabalho marcadas pela informalidade.  
15  
Tais resultados corroboram as formulações de Dejours (1992), segundo as quais o  
sofrimento no trabalho não decorre apenas das exigências técnicas da atividade, mas também  
das condições organizacionais que limitam a autonomia, fragilizam o reconhecimento e  
comprometem a estabilidade necessária para a construção da identidade profissional. Nessa  
perspectiva, a precarização dos vínculos laborais tende a ampliar a vulnerabilidade dos  
trabalhadores diante das demandas cotidianas do trabalho.  
Na mesma linha de abordagem de Oltramari e Gemelli (2020) na Psicodinâmica do  
Trabalho, o reconhecimento constitui elemento central para a construção da identidade  
profissional e para a transformação do sofrimento em experiências de prazer (Dejours, 1992).  
Os resultados demonstraram que o reconhecimento assume particular relevância na atividade  
médica e em sua forma de adaptação conforme Palma et al. (2021), uma vez que o valor  
atribuído ao trabalho não decorre apenas dos resultados obtidos, mas também da validação  
social, institucional e coletiva do esforço investido pelos trabalhadores. Quando esses processos  
se fragilizam, aumentam as dificuldades de atribuir sentido ao sofrimento inerente à atividade  
profissional.  
De modo geral, os relatos evidenciaram que prazer e sofrimento coexistem na experiência  
dos médicos que atuavam em contextos de telemedicina. Enquanto a autonomia relativa, a  
flexibilidade e o sentido atribuído ao trabalho favoreceram vivências de prazer, a precarização  
dos vínculos, a intensificação das exigências laborais e a fragilização do reconhecimento  
profissional emergiram como importantes fontes de sofrimento. Tais achados reforçam a  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
compreensão de Batista e Macedo (2022) e Dejours (1992) de que a saúde mental dos  
trabalhadores está profundamente relacionada às condições em que o trabalho é organizado e  
realizado.  
Os relatos sobre insegurança financeira, carga de trabalho e pressão por produtividade  
evidenciaram o conflito entre os valores profissionais dos médicos e as condições concretas em  
que o trabalho é realizado. Sob a ótica da Psicodinâmica do Trabalho, tais situações expressam  
tensões entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Conforme argumenta Dejours (2022),  
quando a organização do trabalho restringe as possibilidades de criatividade, cooperação e  
reconhecimento, o sofrimento tende a perder seu potencial mobilizador e passa a assumir  
características patogênicas, produzindo impactos significativos sobre a saúde mental dos  
trabalhadores.  
Outro aspecto relevante refere-se às estratégias defensivas mobilizadas pelos  
participantes diante das adversidades laborais. Observou-se a presença de racionalização,  
banalização do sofrimento e naturalização da sobrecarga como formas de manutenção do  
funcionamento psíquico frente às exigências organizacionais. Entre as estratégias mencionadas,  
destacaram-se a psicoterapia, a atividade física, o apoio de familiares, amigos e colegas de  
profissão, além da reorganização da rotina e da delimitação de espaços entre a vida profissional  
e pessoal. Tais recursos foram percebidos como importantes para o manejo do estresse, da  
sobrecarga e das tensões associados ao exercício da medicina em contextos marcados pela  
precarização e pela intensificação do trabalho. Na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho,  
essas estratégias podem ser compreendidas como formas de mobilização subjetiva que auxiliam  
os trabalhadores na elaboração do sofrimento e na preservação do equilíbrio psíquico frente às  
adversidades laborais (Dejours, 1992). Em alguns casos, conforme Macêdo (2015), tais  
mecanismos mostraram-se insuficientes, culminando em manifestações explícitas de  
adoecimento, exaustão extrema e afastamento laboral.  
16  
Os relatos que expressam desejo de não chegar ao trabalho ou incapacidade física de  
levantar da cama revelam sinais importantes de esgotamento psíquico e corporal associados à  
organização precarizada do trabalho, conforme Dejours (2007) descreve em suas análises sobre  
os efeitos da banalização da injustiça social no mundo do trabalho. Nesse cenário, o  
atendimento remoto foi percebido por alguns participantes como uma experiência  
transformadora, ao permitir uma organização mais funcional da rotina de trabalho e reduzir  
parte do desgaste associado às atividades profissionais. Essa mudança foi associada a  
sentimentos de satisfação, autonomia e maior controle sobre o próprio trabalho devido à  
dificuldade de adaptação, como alertam Palma et al. (2021).  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
Na perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, a possibilidade de exercer maior  
autonomia sobre a organização da atividade favorece experiências de prazer, uma vez que  
amplia a margem de ação do trabalhador sobre seu fazer profissional. De modo geral, os  
resultados evidenciaram que a experiência de trabalho dos médicos participantes é marcada por  
transformações significativas nas formas de contratação, gestão e prestação dos serviços de  
saúde.  
Embora a telemedicina tenha ampliado possibilidades de autonomia, flexibilidade e  
reorganização da rotina profissional, sua utilização ocorre em um contexto caracterizado pela  
precarização dos vínculos, pela intensificação das exigências laborais e pela fragilização dos  
processos de reconhecimento. Sob a perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho, conforme  
descrito por Dejours (1992), tais elementos demonstram que as vivências de prazer e sofrimento  
não decorrem exclusivamente da tecnologia empregada, mas das condições concretas em que  
o trabalho é organizado e realizado, bem como das possibilidades de mobilização subjetiva  
construídas pelos trabalhadores diante dessas exigências.  
17  
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A presente pesquisa buscou compreender, à luz da PDT, os impactos da precarização  
do trabalho médico sobre a saúde mental de profissionais que atuavam em contextos mediados  
pela telemedicina e pelas plataformas digitais. Os resultados evidenciaram que as  
transformações contemporâneas no trabalho em saúde são impulsionadas pela digitalização e  
pela expansão das plataformas (Freitas; Macêdo, 2026). Esse cenário vem produzindo  
mudanças significativas tanto nas condições objetivas do exercício profissional quanto nos  
modos de reconhecimento, cooperação e construção subjetiva vinculados ao trabalho médico  
(Palma et al., 2021; Marengo et al., 2022).  
Embora a telemedicina apresente potencialidades importantes relacionadas à ampliação  
do acesso aos serviços de saúde, à flexibilidade da prática profissional e à otimização de  
determinadas rotinas, os achados revelam que essa modalidade se insere em um contexto mais  
amplo de flexibilização e precarização das relações laborais seguindo as preocupações de  
Marengo et al. (2022). A informalidade contratual, a terceirização, a insegurança financeira, a  
intensificação das jornadas e a ausência de reconhecimento institucional apareceram como  
elementos recorrentes nos relatos dos participantes, corroborando análises que apontam a  
precarização contemporânea como fenômeno que desloca para o trabalhador a responsabilidade  
pela própria estabilidade e proteção social (Batista; Macêdo, 2022; Palma et al., 2021).  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
Sob a perspectiva da PDT, observou-se que tais transformações ultrapassam questões  
operacionais ou econômicas e alcançam dimensões fundamentais da saúde mental e da  
identidade profissional. Conforme propõe Dejours (1992), o sofrimento relacionado ao trabalho  
emerge não apenas das exigências técnicas da atividade, mas, sobretudo, das restrições impostas  
à autonomia, ao reconhecimento e às possibilidades de construção de sentido. Nesse estudo, a  
fragilização dos espaços coletivos de troca e cooperação, associada ao empobrecimento das  
relações interpessoais, apontado por Marengo et al. (2022), promovido pelo atendimento  
remoto, mostrou-se particularmente relevante, comprometendo processos centrais de  
mobilização subjetiva e elaboração psíquica do sofrimento (Dejours, 1992; Dejours, 2022).  
Os relatos revelaram ainda importantes ambiguidades na experiência da telemedicina.  
Se, por um lado, os participantes reconheceram ganhos relacionados à organização do tempo,  
à praticidade tecnológica e, em alguns casos, à melhoria da remuneração, por outro, também  
expressaram sofrimento associado à perda do contato presencial, à insegurança clínica e ao  
enfraquecimento do reconhecimento simbólico do trabalho médico. Esses achados reforçam  
que os efeitos da telemedicina não são inerentes à tecnologia em si, mas dependem das formas  
concretas de organização e gestão do trabalho, das possibilidades de cooperação e do espaço  
concedido à autonomia e à criatividade profissional (Marengo et al., 2022; Dejours, 2022).  
Os resultados sugerem que os impactos observados não decorrem da tecnologia em si,  
mas das formas pelas quais ela é incorporada à organização do trabalho. Assim, a telemedicina  
pode tanto favorecer experiências de autonomia e flexibilização quanto intensificar processos  
de precarização, dependendo das condições concretas em que é implementada. Além dos  
impactos produzidos pelas condições de trabalho, os resultados também evidenciaram os  
recursos mobilizados pelos profissionais para lidar com as exigências e adversidades do  
cotidiano laboral. Outro aspecto relevante refere-se às estratégias mobilizadas pelos  
participantes para sustentar sua prática profissional e preservar a saúde mental. Psicoterapia,  
atividade física, supervisão, reorganização da rotina, apoio social e preservação do tempo  
extratrabalho apareceram como recursos importantes de enfrentamento, demonstrando que os  
trabalhadores não permanecem passivos diante das exigências organizacionais, mas constroem  
formas de resistência e adaptação frente ao sofrimento (Dejours, 1992; Macêdo, 2015).  
Entretanto, os resultados também sugerem que determinadas estratégias defensivas  
podem favorecer a naturalização da sobrecarga e do adoecimento, aproximando-se do processo  
que Dejours (2007) descreve como banalização da injustiça social, no qual experiências  
produtoras de sofrimento passam a ser percebidas como inevitáveis ou inerentes ao exercício  
profissional. Dessa forma, conclui-se que a precarização do trabalho médico em contextos de  
18  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
telemedicina configura-se como um fenômeno que impacta profundamente os modos de  
subjetivação, a construção da identidade profissional e a saúde mental dos trabalhadores. Mais  
do que discutir a incorporação tecnológica na assistência, torna-se necessário problematizar os  
limites éticos, organizacionais e psicossociais da plataformização do trabalho em saúde,  
especialmente diante da crescente adoção de modelos digitais de gestão e assistência (Dejours,  
2004; Pereira; Macêdo, 2021).  
Como limitações do estudo, destacam-se o número reduzido de participantes e a  
impossibilidade de realização da etapa de devolutiva prevista pela metodologia da PDT, aspecto  
que restringe a validação coletiva dos resultados. Além disso, por se tratar de uma investigação  
realizada com médicos inseridos em diferentes contextos de atuação, os achados não permitem  
generalizações para o conjunto da categoria profissional.  
19  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.  
ARTIGO  
REFERÊNCIAS  
BATISTA, T. J.; MACÊDO, K. B. A reforma trabalhista dos discursos de liberdade à  
precarização e alienação das relações de trabalho. In: MACÊDO, K. B.; MACHADO, L. S.  
(org.). As relações de trabalho em tempos de crise: o olhar da psicodinâmica do trabalho –  
teoria, método e casos. Curitiba: CRV, 2022. p. 183-202.  
DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo:  
Cortez, 1992. Obra original publicada em 1987.  
DEJOURS, C. Subjetividade, trabalho e ação. Produção, São Paulo, v. 14, n. 3, p. 27-34,  
2004.  
DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. 7. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio  
Vargas, 2007.  
DEJOURS, C. Psicossomática e teoria do corpo. São Paulo: Blucher, 2019.  
DEJOURS, C. Trabalho vivo. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2022. v. 2.  
FARIAS, K. M. de O.; MACÊDO, K. B. Teletrabalho: Nova Modalidade da Precarização?  
Uma Revisão Bibliográfica. Mosaico, v. 17, n. 28, e1728202507, 2026. Disponível em  
20  
GEMELLI, C. E.; OLTRAMARI, A. P. Voluntariado e formação da identidade: reflexões a  
partir da Psicodinâmica do Trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho,  
Brasília, v. 20, n. 1, p. 956-962, 2020. Disponível em:  
66572020000100013&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 8 maio 2026. DOI:  
MACÊDO, K. B. O diálogo que transforma: a clínica psicodinâmica do trabalho. Goiânia:  
Editora da PUC Goiás, 2015.  
MARENGO, L. L.; KOZYREFF, A. M.; MORAES, F. S.; MARICATO, L. I. G.;  
BARBERATO-FILHO, S. Tecnologias móveis em saúde: reflexões sobre desenvolvimento,  
aplicações, legislação e ética. Revista Panamericana de Salud Pública, Washington, DC, v.  
PALMA, E. M.; SANTOS, T. A. dos; KLEIN, A. Fatores que influenciam a aceitação de  
telemedicina por médicos no Brasil. Revista Alcance, Itajaí, v. 28, n. 1, p. 118-138, 2021.  
PEREIRA, M. A. D.; MACÊDO, K. B. Suicídio e trabalho: contexto e intervenções possíveis.  
In: DAMIANO, R. F.; LUCIANO, A. C.; CRUZ, I. D. G. da; TAVARES, H. (org.).  
Compreendendo o suicídio. Barueri: Manole, 2021. p. 104-115.  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 1-20, e-141, jul./dez. 2026.