ARTIGO  
Data de submissão: 27/05/2026 Data de aprovação: 28/06/2026 Data de publicação: 29/06/2026  
CIRCULAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES EM  
SAÚDE NA PRÁTICA EDUCATIVA DE DOULAS  
Suellen Cristine Isidoro Ribeiro1  
Universidade Federal do Rio de Janeiro  
Bruno Andrade Pinto Monteiro2  
Universidade Federal do Rio de Janeiro  
______________________________  
Resumo  
O artigo analisa a circulação e a democratização das informações em saúde por meio das práticas educativas  
desenvolvidas por doulas no contexto da assistência obstétrica. A partir de uma abordagem qualitativa de caráter  
narrativo, foram analisadas entrevistas com doulas, com o objetivo de compreender como essas profissionais  
mobilizam estratégias educativas para mediar e ampliar o acesso à informação em saúde no ciclo gravídico-  
puerperal. Os resultados evidenciam que a atuação das doulas ultrapassa o suporte emocional e físico,  
configurando-se também como prática de mediação da informação em saúde. As entrevistadas articulam  
conhecimentos científicos sobre fisiologia do parto, protocolos obstétricos e violência obstétrica às experiências  
das mulheres e às práticas integrativas de cuidado, organizando processos educativos horizontais e não formais.  
Entre as principais estratégias identificadas estão o envio prévio de materiais formativos, o uso de recursos visuais  
e a realização de rodas de conversa com organização flexível dos conteúdos. Conclui-se que a atuação das doulas  
contribui para a democratização da informação no contexto da saúde obstétrica, promovendo formas mais  
participativas de construção do cuidado e da informação em saúde.  
1
Palavras-chave: doulas; informação em saúde; educação não formal; educação em saúde.  
CIRCULATION AND DEMOCRATIZATION OF HEALTH INFORMATION IN THE  
EDUCATIONAL PRACTICE OF DOULAS  
Abstract  
The article analyzes the circulation and democratization of health information through the educational practices  
developed by doulas within the context of obstetric care. Based on a qualitative narrative approach, interviews  
with doulas were analyzed in order to understand how these professionals mobilize educational strategies to  
mediate and expand access to health information throughout the pregnancy-puerperal cycle. The findings show  
that the work of doulas goes beyond emotional and physical support and also constitutes a practice of health  
information mediation. The interviewees articulate scientific knowledge about childbirth physiology, obstetric  
protocols, and obstetric violence with women’s lived experiences and integrative care practices, organizing  
horizontal and non-formal educational processes. Among the main strategies identified are the prior sharing of  
educational materials, the use of visual resources, and conversation circles with flexible organization of contents.  
1
Doutoranda em Educação em Ciências e Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUTES), mestre  
em Ensino de Ciências pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) -  
Campus Nilópolis, especialista em Educação e Divulgação Científica pelo IFRJ - Campus Mesquita, licenciada  
em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2011).  
2
Doutor em Educação em Ciências e Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUTES/UFRJ) com  
estágio doutoral sanduíche na Universidade de Aveiro (Ua/PT). Mestre em Tecnologia Educacional nas Ciências  
da Saúde (NUTES/ UFRJ). Licenciado em Química (UFRJ) e em Física (UNIS). Técnico em Química. Professor  
Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/Macaé). Professor do Programa de Pós-Graduação  
em Educação em Ciências e Saúde (PPGECS/NUTES/UFRJ). Professor do Mestrado Profissional em Ambiente,  
Sociedade e Desenvolvimento (PROASD/NUPEM/UFRJ). Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Linguagens  
no Ensino de Ciências (LINEC-UFRJ/Macaé). Pesquisador do Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde  
el Sur (GEASUR/UNIRIO). Pesquisador da Rede Internacional de Estudos Decoloniais na Educação Científica  
e Tecnológica (RIEDECT).  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 1-13, e-135, jan./jun. 2026.  
   
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It is concluded that doulas’ practices contribute to the democratization of information in the context of obstetric  
health, promoting more participatory forms of care construction and health information sharing  
Keywords: doulas; health information; non-formal education; health education.  
CIRCULACIÓN Y DEMOCRATIZACIÓN DE LA INFORMACIÓN EN SALUD EN  
LA PRÁCTICA EDUCATIVA DE LAS DOULAS  
Resumen  
El artículo analiza la circulación y la democratización de la información en salud a través de las prácticas  
educativas desarrolladas por doulas en el contexto de la atención obstétrica. A partir de un enfoque cualitativo de  
carácter narrativo, se analizaron entrevistas con doulas con el objetivo de comprender cómo estas profesionales  
movilizan estrategias educativas para mediar y ampliar el acceso a la información en salud durante el ciclo grávido-  
puerperal. Los resultados evidencian que la actuación de las doulas supera el apoyo emocional y físico,  
configurándose también como una práctica de mediación de la información en salud. Las entrevistadas articulan  
conocimientos científicos sobre la fisiología del parto, protocolos obstétricos y violencia obstétrica con las  
experiencias de las mujeres y las prácticas integrativas de cuidado, organizando procesos educativos horizontales  
y no formales. Entre las principales estrategias identificadas se encuentran el envío previo de materiales  
formativos, el uso de recursos visuales y la realización de círculos de conversación con una organización flexible  
de los contenidos. Se concluye que la actuación de las doulas contribuye a la democratización de la información  
en el contexto de la salud obstétrica, promoviendo formas más participativas de construcción del cuidado y de la  
información en salud.  
Palabras clave: doulas; información en salud; educación no formal; educación en salud.  
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1 INTRODUÇÃO  
No Brasil, ao longo do século XX, consolidou-se o processo de medicalização do parto.  
Esse processo veio no bojo da construção de um discurso de base sanitarista que justificou a  
deslegitimação dos saberes e da atuação de parteiras, bem como a afirmação do médico como  
profissional mais adequado para assistir ao parto, descaracterizando as relações sociais e  
afetivas que se prenominavam naquele campo.  
Todas as alterações ocorridas na assistência ao parto vão constituir o modelo obstétrico  
brasileiro hegemônico atual, em que a centralidade passa a ser do médico, como condutor do  
processo, que intervém de diversas maneiras no trabalho de parto, realizado em ambiente  
hospitalar e controlado. Esse modelo recebe diferentes nomes, como tecnocrático (Maia, 2010;  
Simas, 2016); biomédico; tecnocrático-medicalizante, todos se referindo à mesma vertente da  
base epistemológica do conhecimento produzido pela medicina (Espíndola, 2018).  
Esse novo modelo de assistência ao parto, predominantemente intervencionista, foi  
instituindo a formulação de uma roteirizaço da assistência ao parto, construindo um modo de  
conduçꢀo padronizado, de um “parto ideal”, como nomeiam Silva et al. (2019). Nesse sentido,  
para que o médico se estabelecesse como a única autoridade legítima, os saberes empíricos  
comunitários, tradicionais e femininos, representados pelas parteiras, foram estigmatizados  
como símbolo de ignorância, atraso e insalubridade. Estabeleceu-se uma hierarquia na qual o  
ato feminino de "partejar" foi desvalorizado em prol do método técnico de "conduzir" o parto,  
o que destituiu a mulher de seu referencial cultural e de apoio.  
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Para além disso, no modelo biomédico hegemônico, a parturiente é frequentemente  
posicionada como uma receptora passiva de intervenções técnicas, sofrendo com a falta de  
esclarecimentos adequados e com a realização de procedimentos sem o seu consentimento  
expresso. A alienação à qual a mulher foi submetida se estende ao conhecimento por meio do  
monopólio da informação e do uso de jargões médicos inacessíveis, o que impede a mulher de  
compreender e questionar o que está acontecendo com o seu próprio corpo  
No intuito de combater essa alienação, destacam-se o movimento de humanização e a  
atuação das doulas que o integram. As doulas são profissionais capacitadas para oferecer  
suporte físico, emocional e informacional às mulheres, e às suas famílias, durante todo o ciclo  
gravídico-puerperal, o que compreende a gestação, o trabalho de parto e o período pós-parto.  
Elas atuam como mediadoras de informação no campo da saúde, possibilitando a  
circulação de jargões e nomenclaturas obstétricas complexas em uma linguagem acessível às  
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gestantes, para que reconheçam eventuais violências obstétricas e retomem a autonomia e o  
protagonismo sobre as decisões que envolvem seus próprios corpos.  
Embora a literatura sobre doulas e humanização do parto venha crescendo nas últimas  
décadas, observa-se menor atenção aos processos de mediação da informação em saúde e às  
estratégias educativas mobilizadas por essas profissionais na circulação de saberes sobre  
gestação, parto e nascimento. Permanecem pouco exploradas as formas pelas quais as doulas  
constroem espaços de aprendizagem, articulam diferentes saberes e ampliam o acesso das  
mulheres às informações necessárias à sua participação nas decisões sobre o próprio corpo e  
sobre os processos reprodutivos.  
Dessa forma, nosso objetivo é investigar como as doulas mobilizam estratégias  
educativas para mediar, circular e democratizar informações em saúde no contexto da  
assistência obstétrica no Brasil.  
2 INFORMAÇÃO EM SAÚDE, MEDIAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO DO  
CONHECIMENTO  
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No campo da saúde, a circulação de informações não pode ser compreendida como um  
processo neutro ou meramente técnico. A transmissão isolada de conteúdos biomédicos não  
garante a apropriação crítica desses conteúdos pelos sujeitos, nem sua participação efetiva nas  
decisões relacionadas ao cuidado. Conforme aponta Ayres (2004), o cuidado em saúde envolve  
necessariamente uma dimensão intersubjetiva e comunicacional, na qual o encontro entre  
sujeitos possibilita a ressignificação do conhecimento técnico na experiência concreta da vida.  
A democratização do conhecimento científico em saúde envolve não apenas ampliar o  
acesso às informações, mas também criar condições para a compreensão crítica e  
contextualizada. Nessa perspectiva, Auler e Delizoicov (2001) problematizam a ideia de  
neutralidade da ciência ao defenderem processos educativos que possibilitem aos sujeitos  
compreender os condicionantes sociais, políticos e culturais da produção científica, ampliando  
sua capacidade de participação nas decisões que atravessam suas vidas.  
Nessa perspectiva, não é suficiente a simples aquisição de conceitos técnicos e  
relaciona-se à capacidade de interpretar criticamente informações científicas e utilizá-las em  
situações concretas da vida social. Auler e Delizoicov (2001) defendem que a alfabetização  
científica envolve processos de leitura do mundo mediados pelo conhecimento científico,  
possibilitando aos sujeitos maior participação nas decisões que impactam suas condições de  
vida. No contexto obstétrico, essa discussão permite compreender que o acesso à informação  
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sobre a fisiologia do parto, as intervenções obstétricas e os direitos reprodutivos não se reduz à  
mera transmissão de conteúdos, mas envolve processos educativos de mediação e de  
apropriação crítica desses conhecimentos.  
Nesse contexto, a atuação das doulas pode ser compreendida também como uma prática  
de mediação da informação em saúde, na medida em que essas profissionais articulam  
conhecimentos científicos, experienciais e integrativos em processos educativos voltados à  
ampliação da participação das mulheres nas decisões sobre gestação, parto e nascimento. Mais  
do que transmitir informações, as doulas constroem espaços coletivos de produção e circulação  
de saberes e sentidos sobre o cuidado e o corpo.  
Do ponto de vista epistemológico, é possível perceber um gradiente de saberes nas  
narrativas das doulas. Espíndola (2018) enumerou nessa ordem: científico, feminino, natureza  
e espiritual, com primazia ao primeiro. Já Silva (2019) identificou as práticas realizadas por  
doulas ligadas a dois tipos de saberes que ela chamou de saber tradicional, que mantém sua  
relação com as parteiras, numa ideia de saber ancestral que cruza o tempo por meio da oralidade,  
e de saber biomédico, baseado principalmente na medicina baseada em evidências e validado  
pela lógica científica.  
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Para Silva (2019), as doulas não constituem uma ruptura com o modelo biomédico de  
assistência ao parto; ainda assim, representam elementos de desobediência a esse modelo, pela  
sua própria presença nos hospitais, por propagarem esses saberes fronteiriços, por darem  
visibilidade à diversidade e por estimular o protagonismo e a autonomia feminina.  
Dessa forma, a literatura argumenta que as doulas se constituem como "sujeitos  
híbridos" (Santos, 2022) que operam em um "entre-lugar" (Fornazari, 2022) ou em uma zona  
de "saberes fronteiriços" (Silva, 2019). Esses termos evocam conceitos que remetem a uma  
mescla, a um entrecruzamento de saberes distintos e, de alguma forma, contraditórios. Ao  
mesmo tempo, tais entrecruzamentos não estão isentos de assimetrias e disputas de legitimação.  
Essa articulação de saberes alinha-se a uma concepção de cuidado que desafia a  
exclusividade do modelo biomédico hegemônico. Conforme argumenta Ayres (2004), o  
cuidado em saúde se concretiza quando a intervenção técnica atua não como um fim em si  
mesma, mas como um meio negociado para apoiar a autonomia do paciente, respeitando a sua  
voz e compreendendo a relação indissociável entre a tecnociência e a vida.  
Essas profissionais adotam uma concepção ampliada de cuidado, fundamentada na  
compreensão integral do sujeito, na escuta e na valorização da subjetividade da experiência.  
Nessa perspectiva, o cuidado deixa de se organizar exclusivamente em torno da doença ou da  
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intervenção pontual sobre o corpo biológico e passa a considerar os contextos emocionais,  
sociais e culturais que atravessam os sujeitos.  
Tal compreensão aproxima-se do que Nespoli et al. (2020) identificam como uma  
perspectiva de cuidado alinhada à filosofia freireana, na medida em que reconhece o outro como  
sujeito histórico e situado, cujas experiências, cultura e modos de compreender o mundo  
precisam ser considerados nos processos de cuidado e de produção de saúde. Para os autores,  
essa perspectiva implica deslocar o cuidado de uma lógica centrada apenas na transmissão  
verticalizada de conhecimentos e reconhecer a legitimidade de diferentes formas de saber e de  
produção de sentido sobre o corpo e a saúde.  
Mais do que referenciais abstratos, tais saberes e concepções se concretizam nas formas  
desenvolvidas pelas doulas de mediação da informação em saúde, orientando modos de  
comunicação e de circulação de conhecimentos no contexto da gestação, do parto e do  
puerpério.  
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3 PERCURSO METODOLÓGICO  
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada principalmente na  
metodologia narrativa. A abordagem qualitativa mostra-se particularmente adequada para a  
investigação de campos complexos, como os que articulam a mediação de informações, a saúde  
e as práticas de cuidado, uma vez que permite superar leituras reducionistas da realidade e  
ultrapassar os limites da dicotomia entre racionalidade e emoção, frequentemente presente em  
abordagens de cunho positivista. Essa perspectiva reconhece que os sentidos atribuídos pelos  
sujeitos às suas experiências constituem elementos centrais na produção do conhecimento  
As metodologias narrativas inserem-se nesse movimento, ao compreenderem que o  
conhecimento é construído a partir da interação, da escuta e da interpretação das experiências  
narradas, reconhecendo os sujeitos como participantes ativos na produção de sentidos sobre  
suas trajetórias e práticas, em um processo dialógico no qual pesquisador e sujeitos da pesquisa  
constroem conjuntamente o conhecimento.  
Como metodologia de coleta de dados, utilizamos a Entrevista Narrativa. Essa técnica  
é considerada uma forma de entrevista não estruturada, de profundidade, com características  
específicas. Essa metodologia permite que as pessoas entrevistadas construam suas próprias  
versões da realidade, sem se verem presas a perguntas fechadas. A narrativa privilegia a  
realidade experienciada pelos sujeitos que contam a história, não apenas copiando a realidade,  
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mas propondo representações e interpretações particulares do mundo (Jovchelovitch; Bauer,  
2008).  
Essa abordagem permite ao pesquisador compreender as lógicas e os significados que  
os participantes atribuem às suas trajetórias, revelando a complexidade das interações sociais e  
culturais que as moldam. A entrevista narrativa, ao enfatizar a escuta atenta e a valorização das  
vozes individuais, permite o desvelamento de percepções e saberes que, de outra forma,  
permaneceriam silenciados (Jovchelovitch; Bauer, 2008).  
Para chegar às vozes das participantes, empregamos a técnica de amostragem em bola  
de neve. A técnica de bola de neve é um tipo de amostragem não probabilística que utiliza  
cadeias de referência. Como afirma Vinuto (2014), o ponto de partida na execução da  
amostragem bola de neve se dá por meio de sementes, como são chamados os documentos e/ou  
informantes-chave que nos auxiliam a localizar pessoas com o perfil necessário para a pesquisa.  
No contexto desta pesquisa, a proposta foi entrar em contato com pessoas que conhecia  
e que podiam me conectar a doulas. Cada doula, ao aceitar participar, também foi convidada a  
fornecer os contatos de outras profissionais que se enquadrassem nos critérios da pesquisa,  
expandindo progressivamente a rede de participantes de forma orgânica. Este processo de  
indicação contínua permitiu a aproximação com 5 doulas, das quais três foram entrevistadas  
para essa pesquisa.  
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Essa pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa da Universidade Federal  
do Rio de Janeiro, sob o parecer número 7.775.533, em conformidade com todas as diretrizes  
éticas para pesquisas envolvendo seres humanos. A fim de assegurar a integridade e a  
confidencialidade dos participantes, foram utilizados Termos de Consentimento Livre e  
Esclarecido que detalhavam os objetivos da pesquisa e garantiam o anonimato dos dados  
coletados.  
Com a intenção de preservar o sigilo quanto à identidade pessoal das participantes,  
foram-lhes atribuídos nomes fictícios. Também não foram utilizados os nomes dos projetos dos  
quais as entrevistadas são organizadoras. Segue abaixo um quadro com a caracterização das  
sujeitas participantes da pesquisa que nomeamos Nise, Beatriz e Jaqueline:  
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Quadro 1 - Descrição doulas  
Características  
Mulheres entre 29 e 45 anos  
Duas são mães e casadas; duas são residentes da Região Metropolitana do Rio de  
Janeiro e uma da Região dos Lagos.  
Duas relatam vivência de violência obstétrica  
Duas desenvolvem projetos sociais ligados à educação perinatal, em contexto de  
vulnerabilidade  
Elementos recorrentes:  
Experiência pessoal como disparador da formação  
Território como dimensão constitutiva da atuação.  
Atuação que articula cuidado e atuação política.  
Fonte: autoria própria (2026)  
Ao assumir a pesquisa narrativa como orientação analítica, este estudo compreende que  
analisar narrativas não significa extrair dados objetivos ou categorias prévias, mas sim  
interpretar processos de significação que se constroem no próprio ato de narrar. Tal  
compreensão dialoga com Josso (2007), para quem a narrativa de vida constitui  
simultaneamente um dispositivo de investigação e de formação, pois permite ao sujeito revisitar  
sua trajetória, identificar aprendizagens, rupturas e continuidades, e produzir novos  
entendimentos sobre si e sobre o mundo.  
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4 DOULAS E A MEDIAÇÃO DO CONHECIMENTO OBSTÉTRICO  
Os diferentes saberes mobilizados pelas doulas não se restringem ao âmbito individual  
das trajetórias narradas, mas circulam por meio de estratégias de mediação da informação  
construídas no cotidiano da prática da doulagem. As entrevistas evidenciam que a atuação  
dessas profissionais envolve um trabalho contínuo de compartilhamento de conhecimentos em  
diferentes espaços educativos.  
As estratégias descritas revelam uma preocupação constante com a participação ativa  
das gestantes, a construção coletiva do conhecimento e a valorização das experiências  
compartilhadas entre mulheres. Nesse sentido, a circulação dos saberes na doulagem aproxima-  
se da perspectiva de educação não-formal discutida por Gohn (2006, 2014) ao constituir espaços  
educativos organizados fora das instituições escolares tradicionais, mas atravessados por  
intencionalidades formativas, trocas coletivas e pela construção de vínculos.  
As estratégias narradas pelas entrevistadas organizam-se em diferentes dimensões  
pedagógicas que frequentemente se sobrepõem na prática: metodologias participativas, espaços  
coletivos de troca, recursos visuais e sensoriais, construção flexível dos conteúdos.  
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Ao relatarem o envio prévio de materiais em texto, sugestões de documentários, temas  
e roteiros de estudo a serem realizados antes ou depois dos encontros com as gestantes, as  
doulas demonstram preocupação em construir processos formativos com intenção pedagógica  
e que envolvam a participação das gestantes na elaboração do conhecimento. Como explicita a  
fala de Nise:  
Normalmente, antes dessas aulas, a gente compartilha arquivos em PDF com material  
feito por mim mesma ou por amigas doulas que nos autorizam a compartilhá-los.  
Muitos vídeos no YouTube: documentários, o Renascimento do Parto que é um  
documentário antigo, mas que ele é muito atual[...] peço para que vejam juntos anotem  
as dúvidas e aí eu deixo esse dever de casa. (Nise)  
Aqui, a própria doula chama seu encontro com a gestante de aula e ainda faz referência  
a um “dever de casa”, que consiste em se inteirar previamente dos materiais e em levantar  
dúvidas para serem discutidas coletivamente durante os encontros. Tal dinâmica evidencia a  
compreensão daquele espaço como um local formativo, marcado por intencionalidade  
pedagógica.  
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Resgatando Gohn (2014), entendemos que é justamente essa intencionalidade que  
transforma o simples estar junto ou o convívio coletivo em uma prática educativa,  
independentemente do espaço em que ocorre. As doulas demonstram intencionalidade  
pedagógica ao recorrerem a estratégias nas quais elas próprias e as gestantes compartilham a  
responsabilidade pelo aprendizado. Na narrativa de Beatriz, repete-se o incentivo para que a  
gestante explore por conta própria os temas referentes à assistência obstétrica:  
Geralmente eu dou o material antes; ela já chega ao encontro, com esse material lido.  
E aí a gente passa por esse material eu falo rapidamente sobre os principais pontos e  
aí ela vai dando a demanda do que ela a partir do material do que que ela ficou com  
dúvida, de qual questão ela gostaria de aprofundar (Beatriz).  
Ao estimular a mulher a buscar e analisar fontes de informação por si mesma, a doula  
fortalece sua autonomia e a construção de um pensamento crítico sobre o processo de gestar e  
parir. Transformando os encontros em espaços seguros de ampliação conjunta de saberes,  
consolidando uma proposta dialógica e horizontalizada de mediação da informação em saúde.  
Além disso, a horizontalidade se dá também pela grade de assuntos, que não é imposta  
de forma rígida pela doula, mas é construída a partir da realidade e dos desejos das gestantes.  
Nossas entrevistadas relatam que temas são incorporados aos encontros à medida que a  
demanda surge.  
Essa ausência de um programa rígido e previamente imposto alinha-se a uma concepção  
de educação problematizadora e, no contexto da doulagem, essa participação se expressa na  
possibilidade de as próprias gestantes direcionarem os temas discutidos, formularem dúvidas e  
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buscarem compreender criticamente os processos que atravessam seus corpos durante a  
gestação e o parto.  
Essa abordagem, que busca a participação das gestantes no processo de construção do  
conhecimento, também se reflete na utilização de recursos visuais e de dinâmicas interativas  
que valorizam as vivências particulares das mulheres. Nossas entrevistadas relatam que  
utilizam materiais visuais para facilitar a comunicação sobre determinados processos  
fisiológicos com as gestantes.  
Então, por exemplo, eu gosto de usar a régua que demonstra a dilatação do colo do  
útero, que mostra onde o bebê tá dentro da pelve. Eu gosto de trazer para que eles  
vejam os bonecos e as mamas didáticas também são usadas na aula de amamentação  
(Nise).  
A utilização de recursos visuais busca trazer mais clareza e acessibilidade às  
informações técnicas complexas, facilitando a compreensão. Conforme esclarece Freire (1987),  
ao interagir com o recurso visual, ocorre a "descodificação", um processo de reflexão que  
permite ir da abstração ao concreto. O autor argumenta que o recurso visual atua como um  
objeto cognoscível mediador que desafia o aluno e facilita a interação analítica. Trazendo essa  
perspectiva para as práticas de cuidado, essa materialização visual retira o conhecimento do  
plano puramente abstrato e biomédico, facilitando a apropriação do saber e a realização da  
mediação da informação.  
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Nesse mesmo caminho, as doulas demonstram preocupação com a linguagem e a  
estética com que os encontros formativos são estruturados. A fala de Jaqueline explicita essas  
duas preocupações:  
O que eu mais peço para que todo mundo tenha é uma forma de comunicação  
acessível. De uma maneira que as pessoas que estiverem entendam, [...]às vezes é  
muito chato, você está indo para uma roda e parece que é uma palestra acadêmica. A  
nossa ideia é sempre tornar isso o mais acolhedor possível, que elas possam contar as  
coisas para gente. Então é sempre em formato de roda, onde a gente possa estar  
olhando para todas elas e elas estarem olhando para a gente (Jaqueline).  
Nesse trecho ela ressalta a importância da conexão estabelecida nesses espaços  
formativos. E essa conexão se dá de duas formas: pela linguagem, que deve ser compreensível  
a todos, e pela própria organização física das pessoas no espaço. Dessa forma, é possível que o  
conhecimento técnico se converta em sabedoria prática, conforme afirma Ayres (2004). Para  
isso, segundo o autor, o encontro educativo ou clínico deve ser estruturado como uma rede de  
conversação sensível e simétrica.  
A disposição das pessoas em roda torna-se, nesse contexto, um posicionamento ético e  
epistemológico. A roda torna o ambiente acolhedor, cria conexão ao permitir que todos se  
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olhem e promove igualdade entre todos ali, já que ninguém fica em destaque. A roda sustenta  
o pressuposto de que o compartilhamento de informações, assim como o cuidado, deve ser  
construído coletivamente e enraizado na experiência existencial de cada sujeito.  
Assim, o conhecimento científico pode deixar de ser apresentado como um conteúdo  
fixo e descontextualizado e passar a ser mobilizado em diálogo com as experiências concretas  
das gestantes. Essa articulação é essencial, pois, como argumentam Auler e Delizoicov (2001),  
a democratização da ciência desmistifica a superioridade tecnocrática e capacita os sujeitos para  
que as escolhas não sejam feitas a portas fechadas por especialistas, garantindo a participação  
direta e bem informada das mulheres nas decisões sobre o próprio corpo e o parto.  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O estudo evidencia que a atuação das doulas desloca a informação em saúde de uma  
lógica centrada na transmissão técnica para uma prática de mediação dialógica, situada e  
coletiva, que incorpora diferentes formas de saber e expande os eixos de circulação e de  
promoção do conhecimento sobre o ciclo gravídico-puerperal.  
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Essa mediação informacional se concretiza por meio de estratégias educativas  
dialógicas e não formais. Ao recorrerem a metodologias participativas, as doulas estimulam as  
mulheres a buscar e analisar ativamente informações, fortalecendo sua autonomia nos processos  
decisórios relacionados ao parto. Além disso, recursos lúdicos e visuais tornam mais acessíveis  
conhecimentos anatômicos e fisiológicos frequentemente restritos ao universo técnico-  
profissional.  
Ao substituir formatos verticalizados por espaços horizontais de troca e escuta ativa,  
como rodas de conversa e encontros organizados a partir das demandas das próprias gestantes,  
as doulas reconhecem a legitimidade das vivências e dos saberes produzidos pelas mulheres em  
suas experiências de gestação, parto e puerpério, favorecendo formas mais participativas de  
construção do cuidado e da informação em saúde.  
Dessa forma, a atuação das doulas auxilia a democratização da informação no contexto  
da saúde obstétrica ao criar condições para que as mulheres reconheçam, nomeiem e  
interpretem criticamente os procedimentos a que são submetidas, tensionando a histórica  
assimetria no acesso ao conhecimento científico e ampliando sua participação nas decisões  
sobre o próprio corpo e o parto.  
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REFERÊNCIAS  
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Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 122-134, 2001.  
AYRES, José Ricardo de Carvalho Mesquita. Cuidado e reconstrução das práticas de saúde.  
Interface - Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 8, n. 14, p. 73-92, set. 2004. DOI:  
ESPÍNDOLA, Carla Klitzke. Os saberes-poderes que atravessam o parto: as narrativas de  
doulas que atuam no Hospital-Escola de Florianópolis/SC. 2018. Dissertação (Mestrado em  
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